ABORDAGEM AO PAPEL DOS FACTORES PESSOAIS E SITUACIONAIS NA SEGURANÇA NOS LOCAIS DE TRABALHO

02 maio 2017
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Author :   Carla S. Fugas
Citar ARTIGO: Fugas, C. S. 2010. Abordagem ao papel dos factores pessoais e situacionais na segurança nos locais de trabalho. Revista Segurança Comportamental, 1, 44-45 Carla S. Fugas | Mestre em Psicologia Social. Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE-IUL

O “erro” humano é uma consequência e não uma causa, e é provocado por uma panóplia de factores pessoais e situacionais, a nível individual, grupal e organizacional.

As pessoas passam uma parte significativa da sua vida no trabalho e, frequentemente, o trabalho representa um aspecto central nas suas vidas. Por este motivo, tornar os locais de trabalho ambientes saudáveis e seguros é cada vez mais uma preocupação das organizações que se confrontam com elevados custos inerentes aos acidentes de trabalho e incapacidades daí resultantes. Apesar de todos os esforços, só na UE ocorrem cerca de 120 mil mortes por ano causadas por doenças relacionadas com o trabalho, e estima-se que o custo dos acidentes de trabalho no ano 2000 foi de 55 biliões de euros.
Trata-se de uma “factura” demasiado elevada sobretudo se considerarmos que os custos das doenças relacionadas com o trabalho, que causam entre 1,6 e 2,2 vezes mais dias de incapacidade temporária do que os acidentes, não estão incluídos nesta estimativa.
A grandeza destas estimativas faz da saúde e segurança no local de trabalho uma preocupação de saúde pública, cuja compreensão requer a integração de conhecimentos de várias disciplinas. Obviamente, não existe “um” ou “apenas um” caminho para abordar os problemas de segurança. Quando os pesquisadores falam em segurança no local de trabalho, geralmente referem-se a eventos negativos que incluem combinações de causas e efeitos (e.g. Reason, 1990). O factor humano é o que assume mais importância na prevenção e nas causas dos acidentes, sendo habitual atribuir a implicação do “erro” humano em 80 a 90% dos acidentes (Reason, J., 1997).

«O factor humano é o que assume mais importância na prevenção e nas causas dos acidentes, sendo habitual atribuir a implicação do “erro” humano em 80 a 90% dos acidentes.»

Apesar de os sistemas tecnológicos serem cada vez mais complexos, não existe segurança absoluta e, como tal, os acidentes de trabalho não são, por natureza, totalmente controláveis. O “erro” humano é uma consequência e não uma causa, e é provocado por uma panóplia de factores pessoais e situacionais, a nível individual, grupal e organizacional. O grau de bem-estar psicológico, a capacidade de concentração e sentimentos de autoconfiança são exemplos de factores que podem influenciar o nível de segurança dos trabalhadores. A desmotivação, a indiferença e a perda de interesse pelo trabalho são sintomas de burnout que estão relacionados com os acidentes de trabalho. Alguns traços de personalidade foram relacionados com os acidentes. As pessoas com elevado neuroticismo podem ter dificuldade em lidar com situações ameaçadoras (Hobfoll, 1989; Kanfer & Ackerman, 1989), em parte porque podem dedicar demasiados recursos à preocupação e à ansiedade, e não à tarefa em si.
A extroversão, se elevada, pode ser desvantajosa, porque a procura de sensações que a caracteriza pode conduzir as pessoas a terem comportamentos de risco (Golimbet, Alfimova, Gritsenko, & Ebstein, 2007).
Os trabalhadores que acreditam que podem controlar os acontecimentos na sua vida, ou seja, com elevado locus de controlo, devem sentir-se mais motivados para aprender e para desempenhar práticas de trabalho seguras do que os trabalhadores que não acreditam que podem controlar os acidentes. As pessoas com elevada propensão para o risco tendem a procurar sensações de forma impulsiva (Zuckerman, Kuhlman, Thornquist, & Kiers, 1991) e podem seguir práticas mais inseguras, quer por subestimarem a possibilidade de acidente quer por se sentirem estimuladas pelo risco. As atitudes, ao contrário da personalidade, presumivelmente são menos estáveis e podem mudar em função da situação (Petty & Cacioppo, 1986). As atitudes dos trabalhadores em relação ao seu trabalho poderão também ter um impacto na sua motivação para seguirem práticas de trabalho seguras.
Ao nível dos factores situacionais, a relação entre o clima de segurança e os comportamentos de segurança foi extensivamente estudada nas últimas décadas (ver meta-análise de Clarke, 2006). As percepções sobre o clima de segurança indicam a (“verdadeira”) prioridade da segurança na organização em relação a outras prioridades, como sejam a produção e a qualidade.

«A extroversão, se elevada, pode ser desvantajosa porque a procura de sensações que a caracteriza pode conduzir as pessoas a terem comportamentos de risco»

Medir o clima de segurança da empresa pode ser extremamente útil, enquanto ferramenta de diagnóstico, para gerir e melhorar a segurança dos indivíduos no local de trabalho e, dessa forma, prevenir perdas financeiras significativas.
As medidas de natureza reactiva, isto é, posteriores à ocorrência dos acidentes, puramente baseadas em dados retrospectivos (e.g. taxas de sinistralidade, dias perdidos), são insuficientes.
A qualidade da liderança (e.g. Zohar, 2002; Zohar & Luria, 2004), incluindo a lide-rança transformacional (e.g. Barling, Loughlin, & Kelloway, 2002; Hofmann, Morgeson, & Gerras, 2003) e a influência social exercida pelo comportamento dos pares (ver meta-análise de Chiaburu & Harrison, 2008; Fugas, Meliá, & Silva, 2007; 2008) nas atitudes e nos comportamentos de segurança são também variáveis que podem influenciar a segurança e conduzir aos acidentes de trabalho.
Para além da compreensão destes factores, a prevenção dos acidentes de trabalho requer uma acção que vai além do simples cumprimento dos deveres e obrigações legais, ou da simples correcção de situações de risco já manifestadas. Exige a implementação de uma verdadeira cultura preventiva nas empresas. Identificar um erro é apenas o princípio da procura de causas e não um fim.

Bibliografia
FUGAS, C., MELIÁ, J. L., & SILVA, S. Exploratory and confirmatory analysis of the relationship between social norms and safety behaviour, in S. Martorell, C. Guedes Soares, & J. Barnett (ed.), Safety, Reliability and Risk Analysis: Theory, Methods and Applications, vol. 1, pp. 243-248, London: Taylor & Francis Group, 2008.
FUGAS, C., MELIÁ, J. L., & SILVA, S. O impacto das normas sociais nos comportamentos de segurança, In C. Guedes Soares, A. P. Teixeira, & P. Antão (ed.), Riscos Públicos e Industriais, pp. 1163-1166, Lisboa: Edições Salamandra, 2007.
GOLIMBET, V., ALFIMOVA, M., GRITSENKO, I., & EBSTEIN, R. Relationship between dopamine system genes and extraversion and novelty seeking, in Neuroscience and Behavioral Psysiology, 37, pp. 601-606, 2007
HOBFOLL, S. E. Conservation of resources: A new attempt at conceptualizing stress, in American Psychologist, 44, pp. 513-524, 1989.
KANFER, R., & ACKERMAN, P. L. Motivation and cognitive habilities: An integrative/aptitude-treatment interaction approach to skill acquisition, in Journal of Applied Psychology, 74, pp. 657-689, 1989.
PETTY, R. E., & CACIOPPO, J. T. The elaboration likelihood model of persuasion, in Advances in Experimental Social Psychology, 19, pp. 123-205, 1986.
REASON, J. Human Error. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
REASON, J., Managing the Risks of Organizational Accidents. Aldershot: Ashgate Publishing Company, 1997.
ZOHAR, D.,& LURIA, G. Climate as a social-cognitive construction of supervisory safety practices: Scripts as a proxy of behavior patterns, in Journal of Applied Psychology, 89(2), pp. 322-333, 2004.

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    Após um acidente existem muito esforço para determinar as causas raiz e recomendações respetivas, no entanto, não é raro que a ocorrência se repita. O drama se torna real quando precisamos escolher as recomendações, pois cada uma deve contribuir com sua “parcela de probabilidade”. Se não analisarmos profundamente o desvio comportamental, o tipo de erro cometido e sobretudo os fatores humanos envolvidos, a chance de sucesso é muito pequena. Este artigo contém uma sugestão de um método de análise, por abordar profundamente os fatores humanos envolvidos. São apresentados alguns conceitos e definições importantes que são fundamentais para a metodologia: erros internos e externos, fatores humanos e o modelo ABC e ABC reverso.

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Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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