SISTEMA CEREBRAL, HÁBITOS, RESPIRAÇÃO E STRESSE

29 abril 2018
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Author :   Sónia Saraiva
Indexação LATINDEX: Saraiva, S. 2017. Sistema cerebral, hábitos, respiração e stresse. Revista Segurança Comportamental, 11, 36-38. Sónia Saraiva | CEO de Human Performance. Especialista no DeRose Method | info@soniasaraiva.com

Para cada ação realizada pela primeira vez, o cérebro constrói um “caminho neuronal”. Perante a repetição dessa ação, o cérebro vai entender que aquela ação é necessária, sendo desta forma reforçado o caminho neuronal, através da passagem de impulsos elétricos/químicos recorrentes e constantes, tornando-se um automatismo, passando a informação do neocórtex para o cérebro dos mamíferos inferiores ou réptiliano, responsáveis pelos automatismos e hábitos. Existe um circuito neuronal que causa ansiedade quando respiramos de uma determinada forma e tranquilidade quando respiramos de outra. É neste ponto que entra a reeducação respiratória. Um indivíduo reeducado é um indivíduo com mais vitalidade e capacidade de resposta aos desafios e pressões externas, como por exemplo perante um contexto causador de stresse.

NECESSIDADES DO MUNDO GLOBAL
A sociedade de hoje e o momento atual, com aceleração das novas tecnologias, tendem a exigir ações e comportamentos rápidos e adaptados a cada contexto, assim como a gestão de uma grande quantidade de informação ao qual somos bombardeados todos os dias.
Além deste quadro social/profissional, ainda existem aquele tipo de pessoas que assumem elevadas expectativas face às suas capacidades e vontade, aspirando a ser e fazer mais e melhor. Estas pessoas querem obter mais resultados nos seus projetos profissionais e pessoais, querem se realizar mais e sentirem que de alguma forma conseguem influenciar a mudança para um mundo melhor.
Nem sempre o ritmo natural do cérebro e do corpo humano consegue dar respostas adequadas a cada contexto. Observam-se falhas humanas em profissionais de todas as áreas, nos seus trajectos profissionais perante os desafios aos quais se propõem, causadas por opiniões e decisões assumidas em contexto de stresse e burnout, tornando-se estas irreversíveis. Estas falhas surgem também em profissionais extremamente inteligentes, com grandes habilidades e competências.

O SISTEMA CEREBRAL E OS HÁBITOS
O elevado nível de stresse pode levar o ser humano a entrar num ciclo de atitude-comportamental de perda de conexão entre os dois elementos que lhe possibilitam manter o equilíbrio: o cérebro e o corpo (Correia, 2011).
Segundo este pressuposto, gostaria de alertar o leitor para as reações corporais e cerebrais, que influenciam os comportamentos e os hábitos no ser humano.
Vamos primeiro entender o que é um hábito no cérebro humano. Um hábito é “uma tendência ou comportamento, geralmente inconsciente, que resulta da repetição frequente de certos atos; rotina; automatismo” (Infopédia, 2017).
Segundo Paul Maclean e a teoria do cérebro trino (cit. Newman, 2009), estes atos repetidos ou automatismos são desencadeados pelo chamado cérebro “réptiliano” que constitui parte do cérebro humano responsável pelas funções vitais do corpo, sensações de dor ou prazer, em resumo onde está alojado o inconsciente e instinto de sobrevivência humana. O cérebro “réptiliano” funciona por automatismos, reações rápidas sem que o estímulo externo ou necessidade interna passe por um processo de racionalização ou associação de ideias. Desta forma o cérebro economiza energia vital e recursos, processando mais rapidamente todas as informações com menos esforço (Mercola's, 2015).
Antes dos atos serem hábitos/automatismos, o cérebro passa por um processo de aprendizagem. Ao aprender algo novo, a nova informação é tratada na parte mais jovem do cérebro humano, o neocórtex ou cortex pré-frontal. Este “drive” do cérebro humano tem três características interessantes:
1) Tem pouca energia;
2) Pouco espaço para processamento de informação;
3) O processamento de informação é por associação de ideias / imagens / pensamentos. É um processo longo com dispêndio de muita energia.
Por essa razão é desafiante aprender várias coisas novas ao mesmo tempo, como por exemplo aprender uma língua nova e aprender a conduzir ao mesmo tempo.
Já o cérebro dos mamíferos inferiores e o cérebro réptiliano, têm muito espaço e energia para processamento de informação. Eles são responsáveis pelos instintos de sobrevivência, pelas emoções e pelos automatismos e hábitos (Newman, 2009).

FORMAÇÃO DE UM HÁBITO NO CÉREBRO HUMANO
A cada ação feita pela primeira vez, o cérebro constrói um “caminho neuronal”. Este é constituído por um conjunto de vários neurónios que se ligam entre si, por onde irá passar um impulso elétrico ou químico (sinapse). Após a sinapse o corpo ou outras áreas do cérebro reagem gerando uma nova ação ou criando memória da ação primeira. (4)
Esta explicação é para o levar a entender que à medida que se repete a mesma ação, o caminho neuronal reforça-se, pois, passará um impulso elétrico ou químico por este. Quanto mais repetir, mais o seu cérebro vai compreender que aquela ação é necessária, e assim o caminho neuronal reforçado pela passagem de impulsos elétricos/químicos recorrentes e constantes torna-se um automatismo, passando a informação do neocórtex para o cérebro dos mamíferos inferiores ou réptiliano, responsáveis pelos automatismos e hábitos.
Naturalmente, o cérebro humano tem um mecanismo eficaz, conseguindo otimizar o que usamos e descartar o que não usamos. Assim, os hábitos são compreendidos pelo cérebro como automatismos necessários à sobrevivência, e por conseguinte, motivo de bem-estar. Desta forma, para otimizar ao máximo a plasticidade cerebral (propriedade do sistema nervoso que permite o desenvolvimento de alterações estruturais em resposta à experiência, e a estímulos repetidos) (Cognifit, 2011) e induzir bons reflexos ao corpo maximizando a sua vitalidade, há que aprender e treinar a repetição de novos “skils” até que estes se tornem hábitos.
A mudança ou substituição de um hábito por outro mais saudável e de acordo com a natureza humana geram maior capacidade de resposta aos desafios externos e maior rapidez no processamento de informação gerada internamente pelo indivíduo ou pelo meio ambiente externo ao indivíduo. Esta é a chave que nos permite estar numa progressão do nível de vitalidade corporal e atividade cognitiva, e assim no aumento de respostas mais adaptadas ao contexto e encontro de soluções mais eficazes.

"O elevado nível de stresse pode levar o ser humano a entrar num ciclo de atitude-comportamental de perda de conexão entre os dois elementos que lhe possibilitam manter o equilíbrio: o cérebro e o corpo."

RESPIRAÇÃO COMO SOLUÇÃO
Na compreensão empírica e sentida de mudança de hábitos entra o reeducar da função vital primeira da vida humana após o nascimento, a respiração. O ser humano, antes de pensar ou sentir, antes do seu coração bater, decorre o processo de inspiração. Aqui reside a primeira ação e a última que o ser humano faz no seu tempo de vida. Decorrentes desta acção são desencadeadas todas as funções vitais do corpo, assim como, toda a atividade emocional e cognitiva. Ao aprender e treinar hábitos respiratórios coerentes com a natureza do corpo, estará a influenciar de forma consciente toda a máquina biológica que o acompanha e os dados da equação da vida que lhe pertencem e que consegue gerir e maximizar: o seu corpo e o seu cérebro.
Estudos iniciados em 1991 por Jack Feldman, professor de neurologia na UCLA (2014), e mais tarde Mark Krasnow e Kevin Yacle, mostram que a respiração afeta a mente e os estados emocionais. Foi encontrado um circuito neuronal que causa ansiedade quando respiramos rapidamente e tranquilidade quando respiramos lentamente (UCLA, 2016).

RESPIRAÇÃO E O STRESSE
Citando Maria Odete Pereira na revista segurança comportamental (Pereira, 2010): “O termo “Stress” está sempre associado à pressão que se exerce sobre o indivíduo e às suas reações. Embora este termo seja habitualmente utilizado com conotação negativa, a verdade é que a pressão moderada tende a conduzir a uma situação de Eustress (Desafio ou Stress Bom)”. Assim, parece-me poder afirmar que stresse é a diferença entre a energia/vitalidade que um desafio demanda para ser solucionado e a capacidade de resposta do indivíduo ao contexto de pressão. Quando esta diferença é demasiado grande, o indivíduo começa a sentir muita pressão, baixa criatividade/motivação e começa a entrar no chamado stresse mau ou negativo.
Nesta sequência, a solução reside em aumentar a energia vital e cognitiva do indivíduo reduzindo o diferencial entre desafio e capacidade de solucioná-lo. É neste ponto que entra a reeducação respiratória.
Sendo a respiração uma função vital e automatismo ela está alojada no cérebro réptiliano como referido acima. O curioso é que ela é a única função vital que tem contacto com o meio ambiente através do ar. Por esse motivo podemos fazer o caminho cerebral inverso de um automatismo e repassá-lo do cérebro reptiliano ao neocórtex, racionalizando num primeiro momento a forma de respirar (induzindo uma respiração natural ao corpo humano e aumentando a capacidade respiratória) e depois treinando-a até que o novo hábito respiratório se instale no lugar cerebral dos automatismos.
Este treino permite ao indivíduo ter mais oxigénio a circular no corpo e no cérebro a cada inspiração. Como consequência, o indivíduo sentir-se-á com mais vitalidade e capacidade de resposta aos desafios e pressões externas.

"O stresse é a diferença entre a energia/vitalidade que um desafio demanda para ser solucionado e a capacidade de resposta do indivíduo ao contexto de pressão. A solução reside em aumentar a energia vital e cognitiva do indivíduo reduzindo o diferencial entre o desafio e a capacidade de solucioná-lo."

Referencias Bibliográficas
Correia M. L. (2011) . How can cognitive enrichment revert the effects of stress. Sistema integrado de bibliotecas repositório Tese de mestrado. Biologia (Biologia Humana e Ambiente). Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências, [On-line]. Disponível em http://repositorio.ul.pt/handle/10451/4954 [Acedido em 18 de dezembro de 2017]
Newman, J. D. et al. (2009). The Scientific Contributions of Paul D. MacLean (1913–2007). The Journal of Nervous and Mental Disease . Laboratory of Comparative Ethology & National Institute of Child Health and Human Development, NIH, Poolesville, Maryland, [On-line]. Disponível em http://udn.nichd.nih.gov/pdf/Paul_D_MacLean_Contributions.pdf [Acedido em 18 de dezembro de 2017]
Mercola's (2015). Neuroplasticity Studies Reveal Your Brain’s Amazing Malleability. Natural Health Newsletter [On-line]. Disponível em https://articles.mercola.com/sites/articles/archive/2015/01/15/neuroplasticity-brain-health.aspx [Acedido em 20 de novembro de 2017]
Cognifit (2011). Plasticidade neuronal e cognição estrutura e organização [On-line]. Disponível em https://www.cognifit.com/pt/plasticidade-cerebral [Acedido em 18 de dezembro de 2017]
NCBI (2014). Understanding the rhythm of breathing: so near yet so far. PMC US National Library of Medicine, National Institutes of Health [On-line]. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3671763/ [Acedido em 18 de dezembro de 2017]
NCBI (2016). Facts and Challenges in respiratory neurobiology. PMC US National Library of Medicine, National Institutes of Health [On-line]. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4880533/ [Acedido em 18 de dezembro de 2017]
Pereira, M. O. (2010). Teórico-Práticas - Stress, nosso, de cada dia.... Revista Segurança Comportamental, 1, 41.
Infopédia. Conceito de Habito. Porto Editora [Acedido em 18 de dezembro de 2017]

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A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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