RASTREIO DA PRESENÇA DE ESTRESSE, RESILIÊNCIA E COPING ENTRE TRABALHADORES DE UMA INDÚSTRIA QUÍMICA, NO BRASIL

15 abril 2019
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Author :   Nelson Silva Filho & Ary Goldschmidt Galasso
Filho, N. S.; Galasso, A. G. (2019). Rastreio da presença de estresse, resiliência e coping entre trabalhadores de uma indústria química, no Brasil. Revista Segurança Comportamental, 12, 24-31. GA, Lda. Lisboa. Portugal Nelson Silva Filho | Psicólogo Clínico. Universidade Estadual Paulista – São Paulo – Brasil | nelson.silva.filho1@gmail.com; Ary Goldschmidt Galasso | Ortopedista. Especialista em Medicina Ocupacional | arygalasso@gmail.com

Este estudo teve como objetivo verificar a ocorrência de estresse e relações com coping e resiliência, fazendo a relação com dados epidemiológicos da população. Observou-se ausência de correlações entre determinado horário de trabalho e estresse. A maior parte da população apresenta nível de estresse ou de estresse elevado. Existe correlação negativa entre estresse e resiliência, indicando que quanto menor a resiliência maior o estresse, e correlação positiva entre resiliência e estratégias funcionais em coping. Existe correlação entre estratégias disfuncionais e estresse. Entre as estratégias disfuncionais predomina o fator “fuga e esquiva”.

RESUMO
Pretendeu-se verifi--car a prevalência de estresse relacionado ao trabalho, estratégias de coping, grau de resiliência e as relações entre estes fatores e dados socio-demográficos da amostra. Foram utilizados os instrumentos: “Escala de Estresse no Trabalho” desenvolvida por Paschoal e Tamay; “Inventário de Estratégias de Coping de Folkman e Lazarus” e “Escala de Resiliência de Walgnild & Young”. Considerados os dados: Idade, sexo, escolaridade, horário de trabalho, setor e função em que trabalha, número de pessoas que trabalham na casa e quantas dessas trabalham e renda familiar. Foram avaliados 348 indivíduos, dos setores administrativos e da produção, dos três turnos de trabalho, sendo 262 homens e 85 mulheres, representando 44,4% da totalidade de trabalhadores. A idade média foi de 34,4 anos, com desvio padrão de 9,5 anos, em grande diversidade de funções, distribuída por 35 setores da fábrica. Trabalham no horário das 7h20 às 17h20, 49,4% e 18,8% no horário da tarde, que se estende até as 22 horas; no período noturno 8,4% dos indivíduos. Observou-se ausência de correlações entre determinado horário de trabalho e estresse. Trabalhadores com curso superior completo e incompleto representam (56,9%), sendo que 4,3% apenas cursou o primeiro grau. Muitos possuem o segundo grau ou curso técnico equivalente (38,7%). A maior parte das pessoas (43,5%) não indicou outros, entre aqueles com quem reside, com trabalho, assalariado ou não. Sugere este dado que a renda familiar é predominantemente determinada pelo trabalho do colaborador, o que deve impactar os recursos no que tange a acesso a cuidados e tratamentos médicos de agravos à saúde, tanto deste quanto de seus familiares. Através da “Escala de Estresse no Trabalho” foi possível observar que a maior parte apresenta nível de estresse (39,8%) ou de estresse elevado (30,9%) (média = 2,2 e DP = 0,7), correspondendo a 60,3% dos indivíduos, sugerindo alta vulnerabilidade aos eventos decorrentes de estresse, como doenças, absenteísmo e presenteísmo. Os resultados da Escala de Resiliência, em seu fator 1, “competência pessoal”, teve o maior peso (média = 84,03; DP = 10,21), seguido do fator 3, “autoconfiança e capacidade de adaptação às situações”, com média = 32,38 e DP = 4,44. O fator 2, “aceitação de si mesmo e da vida”, pouco contribuiu com maior resiliência. Considerando-se a resiliência do grupo, enquanto um todo, esta mostrou-se alta (média = 139,4 e DP = 15,3), indicando ser um importante fator protetor no que tange ao estresse. Poucos indivíduos expressaram baixa resiliência (0,6%), 14,6% observou-se resiliência moderada e em 87% alta. Observou-se correlação negativa entre estresse e resiliência, indicando que quanto menor a resiliência maior o estresse, e correlação positiva entre resiliência e estratégias funcionais em coping. Não foram encontradas correlações entre estratégias funcionais e estresse, sugerindo que estas podem funcionar como fatores protetores contra a ocorrência de estresse e que as estratégias funcionais são insuficientes para explicar a ocorrência de estresse. Observou-se correlação entre estratégias disfuncionais e estresse, sugerindo que estes comportamentos estão presentes e influenciam na ocorrência de estresse. No que se refere às estratégias funcionais, identificados pela Escala de coping, a grande maioria faz uso (60,4%), sendo que apenas 19% das pessoas fazem uso limitado destas estratégias, sugerindo que a quantidade de pessoas que apresenta maiores limitações para enfrentar as dificuldades na vida e no trabalho é menor. Não há predomínio de um determinado fator entre as estratégias funcionais, sugerindo o uso de todas como elemento protetor ao estresse. Entre as estratégias disfuncionais predomina o fator “fuga e esquiva”. Estes dados sugerem caminhos para prevenção, importância de identificar agravos à saúde, decorrentes do estresse e custos para indivíduo, família, empresa e a sociedade em geral.
Palavras Chaves: estresse, trabalho, resiliência, coping

INTRODUÇÃO
O conceito original de estresse é baseado na definição de Hans Selye de 1936 e pode ser entendido como "uma reação do organismo, com componentes físicos e/ou psicológicos, causado pelas alterações psicofisiológicas que ocorrem quando a pessoa se confronta com uma situação que, de um modo ou de outro, a irrite, amedronte, excite ou confunda, ou mesmo que a faça imensamente feliz.” (SADIR; LIPP, 2009)
De acordo com Paschoal; Tamayo (2004), estresse ocupacional pode ser definido, “como um processo em que o indivíduo percebe demandas do trabalho como estressores, os quais, ao exceder sua habilidade de enfrentamento, provocam no sujeito reações negativas.”
Para a Organização Internacional do Trabalho – OIT, o Estresse Relacionado ao Trabalho é determinado pela organização do trabalho e pelas relações laborais e ocorre quando as demandas do trabalho não combinam ou excedem as capacidades, recursos ou necessidades do trabalhador, ou quando o conhecimento ou habilidades de um trabalhador individual ou de um grupo para lidar com as demandas não são compatíveis com as expectativas da cultura organizacional de uma empresa. (ILO, 2016)
Essas recentes mudanças exigem um novo trabalhador, com maior capacidade adaptativa, mais habilidades em diversos campos do conhecimento, que seja capaz de desempenhar diversas tarefas, acessar e reter um volume muito maior de informações e ao mesmo tempo que tenha habilidades de comunicação e de relacionamentos pessoais. É necessário grande empenho de recursos e tempo para conseguir se manter atualizado e competitivo nesse novo mercado, para o qual o trabalhador não foi preparado. (KUENZER, 1998) (TOLFO, 2002)
A percepção dessa realidade, aliada ao momento de crise de proporções inusitadas por que passa o Brasil, tem criado grande inquietação entre todas as pessoas que, com medo de perderem seus empregos, se submetem a trabalhos mais precários, com menos garantias e benefícios, aumentando os fatores estressores, com graves conseqüências para a saúde física e mental do trabalhador e para o seu bem-estar. (DEJOURS, 1990)
O risco de estresse no trabalho é gerado por características de trabalho como, entre outras, demandas quantitativas excessivas, controle baixo, baixo apoio social, ambigüidade e conflito de papéis, baixas possibilidades de desenvolvimento, insegurança no emprego e a presença de assédio psicológico (também às vezes conhecido como bullying ou mobbing) e violência no local de trabalho. (OSHA, 2009)

"(...) na Europa, o custo estimado da depressão relacionada com o trabalho é de 617 bilhões de euros por ano, o que inclui os custos para os empregadores do absenteísmo e do presenteísmo (272 bilhões de euros), a perda de produtividade (242 bilhões de euros), os custos de saúde (63 bilhões de euros) e os custos de assistência social sob a forma de pagamentos de invalidez (39 bilhões de euros)."
(tradução dos autores) (ILO, 2016).

Para além da deterioração do clima organizacional, influindo no engajamento e no comprometimento dos colaboradores e criando dificuldades interpessoais, existem graves repercussões para a saúde e qualidade de vida dos trabalhadores, podendo ocorrer doenças mentais e comportamentais como exaustão, burnout, ansiedade e depressão, assim como transtornos físicos, como doenças cardiovasculares e alterações musculoesqueléticas. Também podem induzir aderência a comportamentos como tabagismo, uso abusivo de álcool e uso indevido de drogas lícitas ou não, distúrbios do sono, alimentação não saudável, além da relação com acidentes do trabalho e doenças não comunicadas. (ILO, 2016)
Para se ter uma ideia da magnitude econômico-financeira do problema, estudos da Organização Internacional do Trabalho – OIT de 2016 apresentam números que impressionam, quando se aborda o impacto do Estresse Relacionado ao Trabalho no orçamento dos países da Europa. O relatório aponta que “na Europa, o custo estimado da depressão relacionada com o trabalho é de 617 bilhões de euros por ano, o que inclui os custos para os empregadores do absenteísmo e do presenteísmo (272 bilhões de euros), a perda de produtividade (242 bilhões de euros), os custos de saúde (63 bilhões de euros) e os custos de assistência social sob a forma de pagamentos de invalidez (39 bilhões de euros)”. (tradução dos autores) (ILO, 2016).

INSTRUMENTOS
Foram utilizados três instrumentos para a realização da pesquisa: A “Escala de Estresse no Trabalho” desenvolvida por Paschoal e Tamay; O “Inventário de Estratégias de Coping de Folkman e Lazarus” e A “Escala de Resiliência de Walgnild & Young”.
Entre os diferentes instrumentos para avaliar a presença e os diferentes graus de estresse, a “Escala de Estresse no Trabalho” desenvolvida por Tatiane Paschoal, Álvaro Tamayo (2004), considera a interação de fatores ambientais, organizacionais, da vida familiar e da subjetividade do indivíduo, permitindo considerar coping e resiliência, enquanto componentes do que está sendo entendido como estresse. Nesta perspectiva consideram-se como componentes individuais do estresse, os graus de coping e de resiliência apresentados pelo indivíduo.
O presente trabalho tem por objetivo final verificar a ocorrência de estresse e relações com coping e resiliência, e fazer a relação com dados epidemiológicos da população estudada.
A coleta de dados indicativos de estresse, resiliência e coping foi realizada em janeiro de 2016.
Foram convidados pelo Setor de Saúde e Segurança do Trabalho da empresa, todos os seus 784 empregados, incluindo colaboradores dos setores administrativos e da produção, dos três turnos. Compareceram voluntariamente 347 indivíduos, sendo 262 homens e 85 mulheres, que efetivamente participaram da amostra deste estudo, representando 44,4% da totalidade de trabalhadores da organização. Todos foram informados do compromisso dos pesquisadores com o sigilo quanto aos resultados.
Foram considerados os seguintes dados epidemiológicos: idade, sexo, escolaridade, horário de trabalho, setor e função em que trabalha, número de pessoas que trabalham na casa e quantas dessas trabalham e renda familiar.
A Escala de Estresse no Trabalho é composta por 23 itens, obteve um coeficiente alfa de 0,91, sendo solicitado ao indivíduo que assinale a alternativa que melhor expressa sua percepção do item, podendo esta, variar em graus de concordância de cinco pontos: 1 (discordo totalmente), 2 (discordo), 3 (concordo em parte), 4 (concordo) e 5 (concordo totalmente).
Considera os seguintes estressores organizacionais de natureza psicossocial: sobrecarga de trabalho; conflito entre papéis; ambigüidade de papéis; relacionamento interpessoal no trabalho; fatores de desenvolvimento na carreira; autonomia/controle no trabalho e itens que contemplam também uma reação ao estressor. O maior número de pontos expressa maior estresse e a mediana como ponto de corte, as notas variam entre 23 e 115 pontos.
Para analisar os dados usamos estatísticas descritivas. A média do sujeito, grupo ou grupos para todos os itens da escala, permite encontrar um indicador geral, que vai variar de 1 a 5. Quanto maior, maior o estresse. Quando o valor da média for igual ou maior que 2,5 já deve ser compreendido como indicador de estresse considerável.

"Foram utilizados três instrumentos para a realização da pesquisa: A “Escala de Estresse no Trabalho” desenvolvida por Paschoal e Tamay; O “Inventário de Estratégias de Coping de Folkman e Lazarus” e ; A “Escala de Resiliência de Walgnild & Young."

TRATAMENTO DOS DADOS
Para a análise quantitativa foram utilizadas técnicas de estatística paramétrica e não paramétrica, com o uso do SPSS, Software de Análise Preditiva da IBM.
Para analisar a dispersão dos dados foi realizada uma análise descritiva dos mesmos, para tanto analisou-se a amplitude, o desvio padrão e a variância dos dados, sendo os mesmos divididos segundo o grau de estresse.
A análise qualitativa foi realizada levando em consideração os paradigmas dos instrumentos e considerando o estresse como influenciado por fatores como resiliência, coping, fatores ambientais laborais e externos.
Inicialmente verificou-se a existência de correlações entre estresse, resiliência e coping de modo a identificar a coerência entre os instrumentos e posteriormente a correlação com as demais variáveis, sendo também utilizado o teste de Kruskal Wallis para amostras independentes.

RESULTADOS
Consideraram-se os seguintes dados sócio demográficos: idade, sexo, grau de escolaridade, horário de trabalho, número de pessoas que trabalham na casa e renda familiar, como possíveis fatores indutores de estresse. A idade média das pessoas foi de 34,4 anos, com desvio padrão de 9,5 anos. Este dado sugere tratar-se de uma população predominantemente jovem, e com maior número de homens (75,5 %) em uma grande diversidade de funções, distribuída por vários setores da fábrica.
Trabalham no período noturno 8,4 % dos indivíduos. A maioria trabalha no horário das 7h20 às 17h20 correspondendo a 49,4 %, e 18,8% no horário da tarde que se estende até as 22 horas.
Há um número expressivo de trabalhadores com curso superior completo e incompleto (56,9 %), sendo que 4,3% apenas cursou o primeiro grau. Muitos possuem o segundo grau ou curso técnico equivalente (38,7 %).
Da amostra, 66 pessoas, representando 19,1% dos respondentes moram sozinhos, sendo que, no total, verificou-se uma variância de duas a oito pessoas residentes na sua casa. A grande concentração de respostas ficou entre duas a quatro pessoas (70,8% da amostra), sendo quatro a resposta mais informada (26,9%).
A resposta mais apontada, indica que a maioria das famílias (150 indivíduos) vivem dos rendimentos de uma só pessoa, representando 43,5% da amostra, seguida da indicação de que duas pessoas trabalham na casa (132 indivíduos, 38,3%).
A maioria relatou renda familiar na faixa de 3 a 5 mil reais por mês (108 indivíduos, 31% dos respondentes), acumulando 252 indivíduos, 72,6% acima de 3 mil reais e 95 pessoas, 27,4% com renda igual ou abaixo de 3 mil reais.

"Observa-se que 10,3% da amostra faz maior uso de estratégias disfuncionais e que 54,7 % faz menor uso destas estratégias.A média das estratégias funcionais é maior do que as disfuncionais e quando consideramos a pontuação total do grupo (média 159,84) esta é elevada, sugerindo maior uso de estratégias funcionais.Os traços de coping no que se refere as estratégias funcionais, 19% das pessoas fazem uso limitado destas. Considerando as estratégias funcionais 60,4% dos trabalhadores fazem uso, sendo mais freqüente em 39,6%."

O tratamento estatístico da amostra demonstrou não ser possível fazer correlação entre a ocorrência de estresse e a função ou setor dos indivíduos, em razão de não haver número suficiente de representantes de determinada função ou setor para que a análise fosse estatisticamente significante. Por esse motivo, optou-se por utilizar os resultados globais da amostra e agrupar os indivíduos de modo a serem significativos do ponto de vista estatístico. Para analisar os dados usamos estatísticas descritivas, considerando a média do indivíduo, do grupo ou grupos para todos os itens da escala, o que permitiu encontrar um indicador geral, que vai variar de 1 a 5, sendo que quanto maior, maior o estresse. Quando o valor da média foi maior que 2,5 consideramos como indicador de estresse elevado. Até 2 foram considerados sem estresse e entre 2 e 2,5 pontos com estresse.
A média da pontuação do grau de estresse entre os trabalhadores situou-se em 2,2 pontos, sendo o valor mínimo 1 e o máximo 4,8, com desvio padrão 0,7. Estes indicam que, na média, a amostra tende a não expressar estresse, embora exista um grupo com altos índices de estresse em uma amostragem com pequeno desvio padrão.
Quando o valor da média foi maior que 2,5 consideramos como indicador de estresse elevado. Até 2 foram considerados sem estresse e entre 2 e 2,5 pontos com estresse.
Indicam os intervalos de distribuição da pontuação dos indivíduos segundo a freqüência e porcentagem de estresse, os que apresentam estresse elevado correspondem a 30,9%, com estresse 29,4 e sem estresse 39,7.
Os resultados do Inventário de Estratégias de Coping de Folkman e Lazarus, indicam que 19,0 % das pessoas fazem menor uso de estratégias funcionais para o enfrentamento das situações do dia-dia, e 41,4 % oscilam entre estratégias funcionais e disfuncionais, estando na média do grupo e que enquanto que 39,6 % fazem maior uso de estratégias funcionais.
Observa-se que 10,3% da amostra faz maior uso de estratégias disfuncionais e que 54,7 % faz menor uso destas estratégias.
A média das estratégias funcionais é maior do que as disfuncionais e quando consideramos a pontuação total do grupo (média 159,84) esta é elevada, sugerindo maior uso de estratégias funcionais.
Os traços de coping no que se refere as estratégias funcionais, 19% das pessoas fazem uso limitado destas. Considerando as estratégias funcionais 60,4% dos trabalhadores fazem uso, sendo mais freqüente em 39,6%. Não há predomínio de um determinado fator entre as estratégias funcionais, sugerindo o uso de todas e elemento protetor ao estresse. Entre as estratégias disfuncionais predomina o fator “fuga e esquiva”.
Os resultados da Escala de Resiliência, em seu fator 1, “competência pessoal”, teve o maior peso (média 84,03; DP 10,21), seguido do fator 3, “autoconfiança e capacidade de adaptação às situações”, com média 32, 38 e DP 4,44. O fator 2, “aceitação de si mesmo e da vida”, pouco contribuiu com maior resiliência. Considerando-se a resiliência do grupo, enquanto um todo, está mostrou-se alta (média 139,4 e DP 15,3), indicando ser um importante fator protetor no que tange ao estresse. Poucos são os indivíduos que expressam baixa resiliência, representando 0,6% da amostra. Em 14,6% observou-se resiliência moderada e em 87% resiliência alta.
Através da “Escala de Estresse” foi possível observar que a maior parte da amostra apresenta baixo nível de estresse (média 2,2 e DP 0,7), correspondendo a 69,1% dos indivíduos. Neste quesito vale registrar que 30,9% das pessoas apresentam estresse elevado.
A Análise de Correlação entre Estresse e Resiliência indicou coeficiente de: -0.21; p<0,05 – sendo significativo. Quanto menor a resiliência, maior o estresse (correlação negativa).
Ausência de correlação entre Estratégias Funcionais e Estresse. O coeficiente encontrado foi de: 0.02 p>0,05 (N=312). O coeficiente Correlação entre Estratégias Funcionais e Resiliência foi de 0.33; p<0,05 (N=312), sendo significativa, assim como entre Estratégias Disfuncionais e Estresse, o coeficiente foi de 0.32; p<0,05 (N=312). O horário de Trabalho não tem correlação com Estresse, Resiliência e Coping.

"Observou-se que a população estudada apresentou números semelhantes aos constatados em outras pesquisas, como é possível perceber no relatório da International Labour Organization, ILO, 2016, (...) Esta distribuição da amostra, em diferentes horários de trabalho, permitiu identificar ausência de correlações entre determinado horário de trabalho e estresse, sugerindo que o período noturno não é em si um fator indutor de estresse."

CONCLUSÕES
Observou-se que a população estudada apresentou números semelhantes aos constatados em outras pesquisas, como é possível perceber no relatório da International Labour Organization, ILO, 2016, que faz um apanhado das principais pesquisas em todo o mundo.
Ao serem considerados os dados sócios demográficos: idade, sexo, grau de escolaridade, horário de trabalho, número de pessoas que trabalham na casa e renda familiar, observou-se que a idade média das pessoas foi de 34,4 anos, com desvio padrão de 9,5 anos. Este dado sugere tratar-se de uma população predominantemente jovem, com grande variabilidade de idades, pois estas variaram entre 17 e 67 anos, com maior número de homens (75,5 %) em uma grande diversidade de funções, distribuída por 35 setores da fábrica.
Trabalham no período noturno 8,4% dos indivíduos. A maioria trabalha no horário das 7h20 às 17h20, correspondendo a 49,4% e 18,8% no horário da tarde, que se estende até as 22 horas. Esta distribuição da amostra, em diferentes horários de trabalho, permitiu identificar ausência de correlações entre determinado horário de trabalho e estresse, sugerindo que o período noturno não é em si um fator indutor de estresse. Há um número expressivo de trabalhadores com curso superior completo e incompleto (56,9%), sendo que 4,3% apenas cursou o primeiro grau. Muitos possuem o segundo grau ou curso técnico equivalente (38,7%).
A maior parte das pessoas (43,5%) não indicou outros, entre aqueles com quem reside, com trabalho, assalariado ou não. Indicaram ter mais de uma pessoa que também trabalha em sua casa 38,3%. Sugere este dado que a renda familiar é predominantemente determinada pelo trabalho do colaborador, o que deve impactar também os recursos no que tange a acesso a cuidados e tratamentos médicos de agravos à saúde, tanto deste quanto de seus familiares, através do plano de saúde mantido pela empresa.
Considerando a renda familiar, a maioria relatou renda superior a R$ 3.000,00, o que é condizente, à época em que a pesquisa foi realizada, com o grau de escolaridade.
Através da “Escala de Estresse no Trabalho” foi possível observar que a maior parte da amostra apresenta nível de estresse (39,8%) ou de estresse elevado (30,9%) (média = 2,2 e DP = 0,7), correspondendo a 60,3% dos indivíduos. Neste quesito vale registrar que 30,9% das pessoas apresentam estresse elevado, sugerindo alta vulnerabilidade aos eventos decorrentes de estresse, como doenças, absenteísmo, presenteísmo, entre outros.
Aqueles com estresse elevado indicaram que todas as questões eram importantes para expressar o que sentiam e seriam elementos de produção de estresse. Em contrapartida todos os que foram avaliados como não tendo estresse não referiram nenhuma questão.
Os resultados da Escala de Resiliência, em seu fator 1, “competência pessoal”, teve o maior peso (média = 84,03; DP = 10,21), seguido do fator 3, “autoconfiança e capacidade de adaptação às situações”, com média = 32,38 e DP = 4,44. O fator 2, “aceitação de si mesmo e da vida”, pouco contribuiu com maior resiliência. Considerando-se a resiliência do grupo, enquanto um todo, esta mostrou-se alta (média = 139,4 e DP = 15,3), indicando ser um importante fator protetor no que tange ao estresse. Possivelmente esse resultado esteja associado ao grau de escolaridade e capacidade de simbolização das pessoas.
Poucos indivíduos expressaram baixa resiliência, representando 0,6% da amostra. Em 14,6% observou-se resiliência moderada e em 87% resiliência alta. Observou-se correlação negativa entre estresse e resiliência, indicando que quanto menor a resiliência maior o estresse, e correlação positiva entre resiliência e estratégias funcionais em coping. Não foram encontradas correlações entre estratégias funcionais e estresse, sugerindo que estas podem funcionar como fatores protetores contra a ocorrência de estresse e que as estratégias funcionais são insuficientes para explicar a ocorrência de estresse.
Em contrapartida, observou-se correlação entre estratégias disfuncionais e estresse, sugerindo que estes comportamentos (confronto, afastamento, fuga e esquiva, aceitação de responsabilidade) estão presentes e influenciam na ocorrência de estresse.
No que se refere às estratégias funcionais, identificados pela Escala de coping, a grande maioria faz uso (60,4%), sendo que apenas 19% das pessoas fazem uso limitado destas estratégias, sugerindo que a quantidade de pessoas que apresenta maiores limitações para enfrentar as dificuldades na vida e no trabalho é menor. Não há predomínio de um determinado fator entre as estratégias funcionais, sugerindo o uso de todas como elemento protetor ao estresse. Entre as estratégias disfuncionais predomina o fator “fuga e esquiva”.
Estes dados sugerem caminhos em termos de prevenção, na medida em que possam ser diminuídos através de treinamentos específicos (profissional) ou no modo de enfrentar dificuldades com comportamentos de fuga e esquiva.

"(...) foi possível observar que a maior parte da amostra apresenta nível de estresse (39,8%) ou de estresse elevado (30,9%) (média = 2,2 e DP = 0,7), correspondendo a 60,3% dos indivíduos. Neste quesito vale registrar que 30,9% das pessoas apresentam estresse elevado, sugerindo alta vulnerabilidade aos eventos decorrentes de estresse, como doenças, absenteísmo, presenteísmo, entre outros. (...) Considerando-se a resiliência do grupo, enquanto um todo, esta mostrou-se alta (média = 139,4 e DP = 15,3), indicando ser um importante fator protetor no que tange ao estresse."

A pesquisa sugere a importância de se identificar os agravos à saúde, decorrentes do estresse, reconhecidos na literatura, não apenas físicos quanto mentais, e os custos destes para o indivíduo, sua família, a empresa e a sociedade em geral, como vem sendo feito em diferentes nações.
Alguns resultados surpreenderam a Saúde Ocupacional da empresa, uma vez que a prevalência de estresse e estresse elevado superou os 60% da amostra e apontou necessidade de pesquisar, num futuro próximo, quais são os fatores estressores do trabalho.
Os resultados indicam que novos estudos poderão ser realizados visando complementar esta pesquisa. o sentido de esclarecer outras relações da ocorrência de estresse com alguns aspectos do trabalho, supostamente estressores, como o setor da empresa, a renda familiar, o grau de escolaridade, e principalmente, a função ou cargo. Essa complementação é indicada porque, após tratamento estatístico dos dados, não foi possível chegar a resultados conclusivos sobre se esses aspectos são determinantes no desenvolvimento de estresse, em virtude de a amostra ter sido em número insuficiente.
A pesquisa ainda levanta o questionamento sobre a necessidade de serem tomadas atitudes visando a prevenção do estresse no trabalho, envolvendo, quando necessário o setor de Gestão de Pessoas para a condução de treinamentos específicos para os gestores, responsáveis pelo estabelecimento de políticas corporativas da empresa e para os trabalhadores administrativos e da operação.
De acordo com o relatório da European Agency for Safety and Health at Work (2014), “O estresse relacionado ao trabalho é caro. A luta contra o estresse e os riscos psicossociais podem ser vistos como muito dispendiosos, mas a realidade é que custa mais ignorá-los. O estresse afeta o desempenho e leva à ausência do trabalho. Se for prolongado, pode resultar em sérios problemas de saúde, como doenças cardiovasculares ou musculoesqueléticas. Tudo isso tem um custo.”
Este trabalho, complementado por novos estudos, podem auxiliar na prevenção do quadro entre os colaboradores da organização, no sentido de evitar o custo bastante elevado que o estresse representa, para a empresa, seus colaboradores e suas famílias e para a sociedade como um todo, a perda da saúde, da qualidade de vida, da produtividade, do absenteísmo e presenteísmo ou da alta rotatividade de trabalhadores.

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