GAMIFICAÇÃO COMO TÉCNICA DE APRENDIZAGEM EM SEGURANÇA NO TRABALHO

17 fevereiro 2020
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Author :   Cláudio César Pontes
Pontes, C.C. (2020). GAMIFICAÇÃO COMO TÉCNICA DE APRENDIZAGEM EM SEGURANÇA NO TRABALHO. Revista Segurança Comportamental, 13, 46-51. GA, Lda. Lisboa. Portugal Cláudio César Pontes | Consultor em Saúde e Segurança do trabalho. Alpinista Industrial e Docente no Serviço Social de Aprendizagem Industrial – SENAI | claudioc.pontes@hotmail.com

Atualmente, as mais diversas áreas, incluindo a segurança no trabalho, estão adotando a tendência de engajar pessoas por meio da lógica dos jogos, a chamada – gamificação. Gamificação é um termo aportuguesado adaptado do inglês (do original gamification) que consiste no uso das mecânicas dos jogos para despertar o engajamento de um público específico. Há elementos essenciais que devem de ser considerados e erros que não devem ser cometidos, no planeamento e implementação desta técnica. A essência da gamificação é trazer a participação e o conhecimento do colaborador para o centro da atividade, deixando de ser um mero elemento passivo e assumindo o protagonismo que lhe cabe. Bons resultados são encontrados entre o “casamento” da gamificação e tecnologia.

INTRODUÇÃO
Ganhar pontos, rankings, desafios, feedbacks instantâneos e títulos de campeão. Já passou o tempo em que estes elementos eram exclusivos dos jogos que utilizávamos para nosso lazer. Hoje, as mais diversas áreas estão adotando a tendência de engajar pessoas por meio da lógica dos jogos, a chamada – gamificação. Do aprendizado de idiomas a prática de exercícios, dos corredores do MIT (Instituto Tecnológico de Massachusetts), as reuniões de marketing de grandes empresas, a gamificação tem sido largamente utilizada e aprimorada para que possamos realizar tarefas ou atividades de forma mais descontraída e prazerosa. Mas o que tem isso de relevante para a segurança do trabalho? Estimados colegas prevencionistas, certamente já questionaram o quão importante são os treinamentos para conscientizar os trabalhadores sobre os riscos nos contextos de trabalho. Porém, devemos ser honestos, alguns treinamentos são maçantes e os temas, apesar de importantes, são repetidos tantas vezes que os trabalhadores têm que fazer um esforço para se manterem interessados ou mesmo despertos. Quantos facilitadores de prevenção já saíram desses treinamentos com a sensação de que os trabalhadores estavam ali apenas de corpo presente. Caímos então no risco de projetar a culpa do “mau resultado” exclusivamente ao colaborador, taxando-os de desinteressados e relapsos quanto a sua própria segurança.
Mas será mesmo que a culpa é deles? Será que é possível fazer com que os temas apresentados se tornem algo mais atrativos?

AUTO-REFLEXÃO PARA A MUDANÇA
Certa vez li uma interessante frase sobre educação: “Somos professores nascidos no século XX, ensinando alunos nascidos no século XXI utilizando técnicas do século IXX”. Esta frase me marcou bastante e creio que o principal motivo disto foi porque a li a primeira vez eu estava a meio de renovação do Programa de Proteção Respiratória de uma grande empresa de produção de cimento do Brasil.
Uma das muitas exigências legais brasileiras é que, uma vez identificado algum risco para o sistema respiratório dos trabalhadores é obrigatório elaborar o Programa de Proteção Respiratória – PPR, o qual prevê, entre outras coisas, o treinamento anual com uma carga horária mínima de 4 horas. Caro leitor da Revista Segurança Comportamental, não irei mentir, a apresentação do treinamento não estava ajustado às necessidades, expectativas e exigências dos trabalhadores da sociedade atual, nem focada nos aspetos positivos tão importantes para a mudança cultural. Era composta por 63 slides padronizados de textos intercalados por fotos pessoas com doenças terminais e ameaças de advertências e punições. Outro aspeto evidenciado como não favorável à aprendizagem, era porque uma parcela considerável daqueles trabalhadores tinham mais de dez anos de antiguidade de empresa e de função e já tinham participado tantas vezes nesse mesmo treinamento, que desconfio pelo desenrolar da ação que conheciam tanto quanto, ou mais do que eu sobre o tema. Foi uma experiência frustrante para mim como facilitador. Tenho mais de uma década de experiência como facilitador na profissão de prevencionista em segurança do trabalho, acredito na importância e relevância desta profissão um fervor quase religioso, no entanto, depois de ter experienciado a situação que descrevi, fiz um auto-reflexão e convenci-me de que devia mudar buscando algo que tornasse os treinamentos mais atrativos. Comecei a pesquisa e leitura literária e determinei a gamificação como solução.

"Existem diversas teorias comportamentais por trás dessa ferramenta, como a teoria da diversão (Koster, 2004), que trata, entre outras coisas sobre os aspectos da percepção humana relacionados com a forma de abordagem, assim como, a recompensa positiva (Skinner, 1974), onde um estímulo é dado ao participante para incentivar que determinada ação ou postura se repita."

GAMIFICAÇÃO E ESTRATÉGIAS DE IMPLEMENTAÇÃO
É importante entender o conceito de gamificação antes de tudo. Mas o que é de fato a gamificação? Gamificação é um termo aportuguesado adaptado do inglês (do original Gamification) que consiste no uso das mecânicas dos jogos para despertar o engajamento de um público específico (Camilo, 2019). Existem diversas teorias comportamentais por trás dessa ferramenta, como a teoria da diversão (Koster, 2004), que trata, entre outras coisas sobre os aspectos da percepção humana relacionados com a forma de abordagem, assim como, a recompensa positiva (Skinner, 1974), onde um estímulo é dado ao participante para incentivar que determinada ação ou postura se repita. Em outras palavras, é transformar os treinamentos mais maçantes em algo divertido, desafiante e compensador para o público-alvo. Em segurança no trabalho, o público-alvo são os trabalhadores que participam do treinamento. As estratégias de implementação da técnica de gamificação nas empresas podem ser suportadas pela implementação de boas práticas em outros contextos que há muitas décadas já a utilizavam de uma forma ou outra para engajar seus membros. Sejam os grupos de escuteiros com suas belas insígnias ou a reservada maçonaria com seus níveis a serem alcançados. Para iniciar o seu planejamento de aplicação da técnica de gamificação deve seguir alguns elementos essenciais (Busarello, 2016), expressos no quadro 1.
Através da mistura dos elementos essenciais atrás descritos, podemos dizer que a técnica gamificação é uma ferramenta adaptável e versátil, podendo ser implementada em diferentes tipos de empresa como uma maneira mais eficiente de a mensagem de segurança ser transmitirmos, entendida e interiorizada. A gamificação torna a mensagem importante de segurança mais amigável e menos intimidadora, seja por meio de dinâmicas, desafios, realização de tarefas, estratégias competitivas ou cooperativas. Também aqui se devem aplicar os princípios básicos da gestão de segurança baseada em comportamentos, ou seja, deve ser dado primazia ao reforço positivo, à repetição de comportamentos seguros, à disciplina, ao cooperativismo e trabalho em equipa e cuidado com o outro.

Quadro 1 - Elementos essenciais da técnica de gamificação

 

Fonte: Busarello (2016)

GAMIFICAÇÃO E ERROS NA SUA APLICAÇÃO
Há já alguns erros identificados que podem ocorrer ao implantar a gamificação dentro de nossas organizações:
1. Criar “objetivos de conquista” (sejam eles pontos, medalhas ou níveis), mas manter a estrutura tradicional de um treinamento e isso seria simplificar em excesso a ferramenta;
2. Ou ainda a divisão de equipes em grupos menores, sem uma estratégia devidamente desenhada, que pode acabar estimulando uma competição agressiva e nociva ao grupo;
3. Outro erro observado é o de infantilizar as práticas ou;
4. “Suavizar” demais os possíveis danos a saúde e a integridade física dos trabalhadores fazendo com que, ao invés de se conscientizarem dos riscos, o menosprezem.

ELEMENTOS E EXEMPLOS DE GAMIFICAÇÃO
Ainda sobre o elemento essencial “oportunidade”, não poderíamos deixar de citar um famoso episódio que ocorreu no Brasil nos anos oitenta em uma fábrica de Creme Dental em São Paulo. Conta a história que a máquina embaladora do final da linha de produção às vezes permitia a saída de caixas de creme dental sem o tubo. Um grande problema para a reputação da empresa. Para solucionar o problema, os gestores contrataram um grupo de engenheiros que desenvolveram um sistema de balanças de precisão colocadas nas esteiras da saída da máquina. Essa balança detetaria a presença de caixas vazias e pararia o processo caso acusasse a presença de alguma. Em seguida, um funcionário deveria remover a caixa e apertar um botão para que o processo continuasse. Simples não é mesmo?
Depois de muito trabalho intelectual dos desenvolvedores e de alguns milhões de reais investidos, finalmente o problema havia sido resolvido, porém... passadas poucas semanas, enquanto caminhava pela fábrica, um dos gestores viu que todas as balanças que eles haviam instalado estavam desligadas. Indignado com a situação chamou o trabalhador responsável por aquela área e iniciou um “copioso” sermão. Muito respeitosamente, depois de ouvir as reprimendas de seu chefe o colaborador respondeu: “Sabe o que é doutor... toda vez que passava uma caixinha vazia a máquina parava e alguém tinha que largar o que estava fazendo, tirar a caixinha vazia e reiniciar a linha. Dava muito trabalho, então fizemos uma vaquinha, juntamos R$80,00 [equivalente a 17,25 euros] e compramos um ventilador grande e colocamos do lado da esteira, aí toda vez que uma caixa vazia passa na frente o vento a empurra ela para fora".
As origens dessa história, bem como o conhecimento de quais partes são reais e quais são exagero se perderam com os anos, mas ela exemplifica algo muito importante para nós: o conceito de que ninguém conhecera tão bem o posto de trabalho quanto o próprio operador. Embora este exemplo não seja propriamente sobre gamificação, no entanto, mostra a importância da participação dos trabalhadores para a gestão. A essência da gamificação é trazer a participação e o conhecimento do colaborador para o centro da atividade, deixando de ser um mero elemento passivo e assumindo o protagonismo que lhe cabe.
Um exemplo feliz foi a aplicação da gamificação durante um treinamento de Operação Segura de Máquinas Agrícolas numa determinada empresa. No lugar de descrever as recomendações de segurança item por item, foram apresentados três casos fictícios de acidentes onde os colaboradores, divididos em grupos de 5 pessoas, deveriam apontar suas próprias recomendações para que o acidente não tivesse ocorrido. Resulta que o procedimento interno da empresa trazia 32 recomendações de segurança e os trabalhadores levantaram um total de 41. Destas nove novas recomendações, 5 foram incorporadas ao procedimento padrão da empresa com o aval da diretoria. Este exemplo mostra o elemento “oportunidade” da gamificação, ou seja, nos treinamentos, desde que haja envolvência e colaboração dos trabalhadores, podem resultar soluções para melhorar o sistema de gestão de segurança.
Dentro da área de segurança no trabalho, outro exemplo de sucesso é o jogo de tabuleiro chamado En Busca del TeISOro Perdido desenhado pela empresa peruana Ludo Prevención (Pinto, 2016) para ensinar sobre a norma ISO 45001. Mesmo o tema sendo considerado insipido por muitas pessoas o jogo consegue ser incrivelmente divertido e didático. Utilizando um “mapa do tesouro” e dois baralhos de cartas onde os colaboradores devem completar as informações ou situar o procedimento dentro das etapas do processo. Ganha quem conseguir implantar o sistema primeiro (mas contanto sempre, além do conhecimento prévio, com o elemento sorte através de cartas de bonos ou reveses o que o torna realmente divertido). Ainda seguindo a linha da gamificação temos a utilização dos óculos de realidade virtual, controles manuais ou consoles, onde o aluno é instruído e avaliado inteiramente num entorno virtual. Esta prática é particularmente interessante em capacitações onde o próprio treinamento pode apresentar algum risco como o caso do treinamento de operação de máquinas pesadas, trabalhos em altura ou utilização de extintores de incêndio. Três empresas iberoamericanas têm-se destacado na utilização desta ferramenta aplicada a SST, entre elas temos a chilena Qualitat (2018) a argentina InterBrain (Bogotá, 2019) ou a espanhola Ludus (2017). Posso afirmar com propriedade de causa que o susto que levamos ao “cair” durante uma simulação em Realidade Virtual são realmente instrutivos e parecem bem reais. Reais o bastante para acelerar os batimentos cardíacos e fazer com que pensemos duas vezes antes de subir alguma estrutura sem utilizar um cinto de segurança ou não cumprindo outras regras de segurança.

"Erros identificados que podem ocorrer ao implantar a gamificação dentro em organizações:
1) Criar “objetivos de conquista” com estrutura tradicional
2) Elevada divisão do grupo eleva a competição agressiva
3) Infantilizar as práticas
4) “Suavizar” os danos para a saúde."

GAMIFICAÇÃO COM A TECNOLOGIA
Bons resultados também são encontrados do casamento da gamificação com a tecnologia. Realidade virtual, realidade aumentada, ambientes digitais, aplicativos, plataformas e uma infinidade de outras tecnologias maximizam a eficiência dos treinamentos com a prática num ambiente controlado. Desenvolver treinamentos que estimulem os trabalhadores a quererem participar, gerando mais que apenas o sentimento de “cumprir obrigações”. Devemos deixar claro, porém, que o objetivo dessa técnica não é tornar o processo de aprendizado divertido, mas sim mais interessante. Afinal de contas, entretenimento com baixo teor de conhecimento tampouco nos serve. O processo de gamificação deve contar com desafios reais e incitadores. Senão perde-se a graça. Parece-me que em geral esse tipo de abordagem possui uma boa aceitação por parte dos colaboradores, sobretudo no caso daqueles trabalhadores mais jovens, nascidos a partir dos anos 90. Por se tratar de uma geração mais conectada e acostumada com o meio digital eles possuem algumas características diferentes das gerações anteriores e, por essa razão, seu processo de aprendizado também difere e os ecos da gamificação ressoam mais fundo.

Parece-me que em geral esse tipo de abordagem possui uma boa aceitação por parte dos colaboradores, sobretudo no caso daqueles trabalhadores mais jovens, nascidos a partir dos anos 90. Por se tratar de uma geração mais conectada (...)"

DESAFIO FINAL
Estimados colegas, embora nem sempre nosso trabalho seja devidamente priorizado dentro das organizações, ele é essencial para garantir a segurança dos trabalhadores e nunca devemos deixar de nos esforçar em buscarmos respostas mais eficientes para os novos desafios. Sobre a gamificação, independente de nossas convicções pessoais, nos convém seguir o conselho que um sábio escreveu há muito tempo atrás... de que "devemos examinar tudo e reter o que é bom”.

Referências Bibliográficas
Livros:
Busarello, R. I. 2016. Gamification – princípios e estratégias. São Paulo, Pimenta Cultural.
Camilo, J. 2019. Gestão de pessoas: práticas em treinamento e desenvolvimento, São Paulo, Editora Senac.
Koster, R. 2004. A theory of fun for game design. Sebastopol, O'Reilly Media.
Skinner, B. F. 1974. Sobre o behaviorismo. São Paulo, Editora Cultrix
Site web:
Bogotá, D. 2019. Available http://www.interbrainco.com, Mendonza [Accessed 06 January 2020].
Ludus 2017. Available https://www.ludus-vr.com, Bilbao [Accessed 06 January 2020].
Pinto, P. 2016. Available https://ludoprevencion.com, Lima [Accessed 06 January 2020]
Qualitat 2018. Available https://www.qualitatgroup.com, Talcahuano [Accessed 06 January 2020].

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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