INVESTIGAÇÃO E ANÁLISE DE DOENÇAS PROFISSIONAIS, NA PERSPETIVA DA HIGIENE DO TRABALHO

30 março 2021
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Author :   Augusto, N.
Natividade Gomes Augusto | Socióloga. Pós-graduada em gestão de segurança e saúde no trabalho. | direcao@pro-ativo.com Augusto, N. (2021). Investigação e análise de doenças profissionais, na perspetiva da higiene do trabalho. Revista Segurança Comportamental, 14, 23-34. GA, Lda. Lisboa. Portugal

As doenças profissionais assumem a maior parte da fatia (86,3%) de mortes ligadas ao trabalho, no entanto é de estranhar que tenham menor visibilidade no sistema de gestão de segurança e saúde no trabalho, comparativamente aos acidentes de trabalho que assumem 13,7%. Este artigo surge como forma de apoio à campanha EU-OSHA 20-22, na sequência do 1.º curso em Portugal sobre investigação e análise de doenças profissionais, na perspetiva da higiene do trabalho. Ao longo do artigo são apresentados conceitos, uma estrutura do procedimento de IADP alinhado com a ISO 45001:2018, assim como algumas ferramentas de investigação, análise e intervenção, segundo as abordagens de Health I & Health II, com aplicação prática à doença profissional epicondilite.

INTRODUÇÃO
O tema sobre as doenças profissionais pode ser considerado o parente pobre da gestão da segurança e saúde, já que são estas que assumem a maior parte da fatia (86,3%) de mortes ligadas ao trabalho, embora nem por isso tenham tanta visibilidade como por exemplo os acidentes de trabalho que ocupam 13,7% das mortes ligadas ao trabalho, segundo Programa Nacional de Saúde Ocupacional (PNSOC) – Extensão 2018/2020. Há dificuldades já identificadas pelas entidades que regulam a saúde no trabalho, sendo uma das mais evidente a fraca cultura de participação por parte dos médicos. A nível de higiene do trabalho, existem também dificuldades por desconhecimento de dados e informação, em acompanhar, prevenir e até investigar e analisar as doenças profissionais, doenças participadas e quase-doenças profissionais. Tanto em Portugal como a nível mundial são as doenças músculo-esqueléticas as que mais contribuem para as mortes de doenças ligadas ao trabalho. É neste cenário que surge a atual campanha da EU-OSHA 20-22: locais de trabalho saudáveis: aliviar a carga, centrando-se na prevenção de lesões musculosqueléticas (LME) relacionadas com o trabalho. É neste seguimento e como forma de apoio da campanha que surge o 1.º curso em Portugal sobre Investigação e Análise de Doenças Profissionais, realizado em 2020. Este artigo é a sequência do curso que teve como foco as lesões musculosqueléticas, especificamente os casos de epicondilites, associado essencialmente a riscos relacionados com a postura, a exposição a movimentos repetitivos ou a posições cansativas ou dolorosas. Ao longo do artigo são apresentados conceitos, uma possível estrutura do procedimento de IADP alinhado com a ISO 45001:2018, assim como algumas ferramentas de investigação, análise e intervenção, segundo as abordagens de Health I & Health II.

1. ENQUADRAMENTO
Em 1919, a Organização Internacional do Trabalho (O.I.T.) define a primeira doença profissional designada por Carbúnculo, doença infeciosa provocada pela bactéria Bacilus Anthracis, ano da fundação deste organismo internacional.
A recomendação da Comissão Europeia nº90/326/CEE, relativa à adoção da lista europeia de doenças profissionais, constituiu um novo impulso no sentido da atualização da lista nacional de doenças profissionais. A primeira lista de doenças profissionais é publicada em Portugal, através da Lei nº1942 de 27 de julho de 1936, a qual anexa os quadros de doenças profissionais de acordo com sete grupos. A lista de doenças profissionais atual consta do Decreto Regulamentar n.º 76/2007.
Segundo o programa nacional de saúde ocupacional (2018/2020), em 2017 a nível mundial 2,78 milhões de mortes atribuídas ao trabalho, foram causadas por doenças profissionais e acidentes de trabalho, sendo que a mortalidade relacionada com o trabalho representa assim 5% do total de mortes globais. Na mortalidade atribuída ao trabalho (2017), a maior parcela está relacionada com doenças ligadas ao trabalho, responsáveis por 2,4 milhões (86,3%) do total estimado de mortes, e os acidentes de trabalho fatais representaram os restantes 13,7%. No mundo e em Portugal (2014) são as doenças músculo-esqueléticas as que mais contribuem para as mortes de doenças ligadas ao trabalho, seguidas das paralisias (Relatório “Trabalho e Saúde em Portugal – 2016).
Em Portugal, quando se caracterizam as doenças profissionais certificadas por fator de risco, verifica-se que as doenças provocadas por agentes físicos têm, desde 2010, uma preponderância acima dos 89%, representando, em 2017, cerca de 96% das doenças certificadas (ACT, 2018).

2. CONCEITOS PRINCIPAIS
É no contexto de trabalho globalizado com a tendência cada vez maior de sistemas organizacionais sociotécnicos que apresento os conceitos mais importantes para a investigação e análise de doenças profissionais. Estes conceitos estão relacionados com a gestão da segurança e saúde no trabalho, baseada tanto na abordagem de Health I, como na abordagem Health II. A primeira diz respeito à gestão de saúde no trabalho através da presença de acontecimentos que dão errado, realizada pelo oposto de saúde, pelo que acontece quando ela está ausente, e não quando está presente. São geridos e medidos os eventos indesejáveis, como as lesões e doenças. A segunda é referente à gestão de saúde no trabalho através da presença de acontecimentos que dão certo. Uma grande parte das situações dão certo, nomeadamente as situações novas imprevisíveis, porque o fator humano ajusta-se a nível comportamental (Hollnagel, 2006) e, por conseguinte, pode ser criada resiliência a nível de hábitos. Segundo a abordagem Health II, a resiliência pode ser medida tanto a nível de organização, do sistema SST e dos trabalhadores. Assim, os conceitos relevantes para a temática são:
- Doença profissional: é a doença contraída pelo trabalhador na sequência de uma exposição a um ou mais fatores de risco presentes na atividade profissional, nas condições de trabalho e/ou nas técnicas usadas durante o trabalho (artigo 94.º da Lei n.º 98/2009, de 4 de setembro, e artigo 3º do Decreto-Lei n.º 503/99, de 20 de novembro). É ainda considerada doença profissional a lesão corporal, a perturbação funcional ou a doença não incluída na lista das doenças profissionais (Decreto Regulamentar n.º 76/2007, de 17 de julho), desde que se prove ser consequência, necessária e direta, da atividade exercida e não representem normal desgaste do organismo (artigo 283.º da Lei n.º 7/2009, de 12 de fevereiro – Código do Trabalho).
- Doenças relacionadas com o trabalho: são as doenças multifatoriais para cuja etiologia contribuem fatores de natureza profissional, individual e/ou extraprofissional e na qual o trabalho não desempenha um papel decisivo, mas contribui com um ou mais dos fatores diretamente relacionados. São difíceis de caracterizar pelo método epidemiológico e atualmente representam um problema de grande dimensão em saúde ocupacional. Enquadram-se neste âmbito, entre outras: as lombalgias; alterações físicas e psíquicas devidas ao trabalho por turnos; stresse ocupacional; doenças cardiovasculares (ARSLVT, OT3, pp.26-27).
- Doenças agravadas pelo trabalho: são as doenças que não têm influência do trabalho na etiologia das doenças, mas sim na sua evolução ou no seu desfecho. Assim, por exemplo, um trabalhador que desde jovem sofra de asma ou de qualquer outra patologia respiratória, pode ter complicações ou agravamento se exercer a sua atividade em meio laboral, onde existam poeiras em suspensão no ar. (ARSLVT, OT3, pp.26-27).
- Agravamento: lesão ou doença que, estando a melhorar ou estabilizadas, pioram ou se agravam (DL 503/99, artigo 3º, alínea p)).
- Recaída: lesão ou doença que, estando aparentemente curadas, reaparecem (DL 503/99, artigo 3º, alínea q)).
- Doença profissional participada: processo de suspeita fundamentada de doença profissional – diagnóstico de presunção –, iniciado por qualquer médico com a obrigação de notificar a entidade competente, mediante o envio do formulário de participação obrigatória devidamente preenchida (Augusto, 2020).
- Quase-doença profissional: é ausência ao trabalho por doença superior a 30 dias, que tenha recomendações médicas no regresso com impacto no exercício das atividades, sendo que estas possam ser explicadas ou causadas pela exposição aos riscos profissionais do contexto alvo (Augusto, 2020).
- Componentes materiais do trabalho: o local de trabalho, o ambiente de trabalho, as ferramentas, as máquinas, equipamentos e materiais, as substâncias e agentes químicos, físicos e biológicos e os processos de trabalho (Lei n.º 102/09, alterada e republicada pela Lei n.º 3/14, artigo 4.º)
- Componentes imateriais do trabalho: cultura, clima, liderança, agentes psicossociais, gestão da mudança, gestão de relações sociais, gestão da comunicação, gestão da participação e compromisso, gestão comportamental e gestão de competências e resiliência (Augusto, 2020).
- Contexto alvo: é o contexto organizacional composto pelas condições materiais e imateriais do trabalho onde o evento indesejável tende a ocorrer ou ocorreu, remetendo em termos práticos para os critérios elegíveis desse contexto (Augusto, 2012).
- Hábito saudável: capacidade de o indivíduo identificar perigos para a saúde, avaliar e controlar os respetivos riscos nas funções exercidas, no presente, e que daí resulte um ato repetido, no nível consciente competente, no sentido de eliminar, reduzir ou controlar a ocorrência, agravamento ou recaída da lesão e afeção da saúde, no futuro, para si e para outros (Augusto (2020) baseada em Scott Geller (2001)).
- Hábito alvo: são comportamentos repetidos ou práticas repetidas tendendo para o nível da consciência competente, desejáveis para serem encorajadas ou indesejáveis para serem alteradas, daquele contexto de trabalho, por um determinado período (Augusto (2020) baseada em Scott Geller (2001))
- Comportamento resiliente de saúde: é a capacidade de o indivíduo antecipar situações adversas novas e imprevistas, detetar os seus limites de perda de controlo, ajustar-se com adaptação positiva perante essa adversidade, com o objetivo antecipar a identificação dos perigos e eliminar, reduzir ou controlar aos riscos através de medidas, de forma a evitar a surgimento, agravamento ou recaída da lesão e afeção da saúde (Augusto (2020) baseada em Hollnagel, E.; Wears, R.L.; Braithwaite, J. (2015)).
- Investigação de doença profissional: é a procura de informações e dados sobre a doença, trabalhador afetado e o contexto alvo, através de evidências do percurso profissional, registos médicos e outros, entrevistas, observação em operação normal, de forma a possibilitar a caracterização deste evento indesejável, no passado e presente temporal (Augusto, 2020).
- Análise da doença profissional: é o ato de procurar entender as conexões entre as partes, explicações e causas, entre o contexto de trabalho alvo, características da doença e trabalhador afetado, identificando possíveis fatores contribuintes, que possa conduzir à determinação de um plano de ações com a inclusão de barreiras efetivas no sentido de eliminar agravamentos, recaídas do trabalhador afetado (reabilitação e/ou de reintegração profissional, incluindo adaptação do seu posto de trabalho), e ocorrência dessa doença em outros trabalhadores que exerçam as funções similares (Augusto, 2020).

3. GESTÃO DE DOENÇAS PROFISSIONAIS
Fazer a gestão de qualquer fenómeno é imperioso utilizar-se princípios, conceitos e ferramentas de gestão. Sendo que a gestão das “doenças profissionais” é composta em grosso modo por três partes (Figura 1), então é necessário usar os princípios, conceitos e ferramentas de conhecimento técnico (saúde e higiene) e conhecimento comportamental, de forma que seja caracterizada a doença, o contexto de trabalho e o trabalhador, assim como, à análise e intervenção dos dois últimos.

Figura 1 – Triângulo de Investigação e Análise de Doenças Profissionais (IADP)
(Augusto, 2020)

3.1. Procedimento investigação e análise de doenças profissionais (IADP)
Elaborar, implementar e melhorar o procedimento IADP deve ser uma preocupação para o gestor de segurança e saúde no trabalho. Deve ser definido o âmbito do procedimento, devendo integrar as obrigações legais sobre a “análise” de todas as doenças profissionais, lesão corporal, perturbação funcional ou doenças confirmadas a todos os sujeitos dependentes do empregador, sendo estes trabalhadores diretos (incluindo os aprendizes) e indiretos, praticado muitas das vezes para estes últimos apenas o acompanhamento da IADP sob a responsabilidade dos prestadores de serviço. Se pretenderem investir na prevenção no sentido de diminuírem drasticamente a ocorrência de doenças profissionais a médio e longo prazo, devem incluir no âmbito não só as doenças participadas, mas essencialmente as quase-doenças, os hábitos não saudáveis (Health I) e os hábitos resilientes de saúde (Health II). De seguida, devem apresentar as abreviaturas, conceitos e documentação de suporte ao procedimento, antes da apresentação do modo de proceder, sendo este constituído pelas seguintes etapas diferenciadas tendo em conta o nível onde se encontra a organização em termos de maturidade da cultura de segurança e saúde:
1. Constituir a equipa de IADP e nomeação de coordenador. Na composição da equipa de IADP devem estar representadas as competências de higiene do trabalho, de saúde no trabalho, organizacionais, técnico-operacionais e comportamentais. O coordenador deve ser o elemento que mais competências tem nesta diversidade de áreas.
2. Elaborar o plano de trabalho e sua distribuição à equipa IADP;
3. Investigar (recolha de dados e informações);
4. Analisar (procura de causas em modelos lineares ou identificar conexões e procura de explicações em modelos não lineares);
5. Elaborar o plano de ações;
6. Comunicar as lições aprendidas (fortes e a melhorar) – veja-se ponto de “Intervenção”;
7. Acompanhar o plano de ações.
São apresentadas na Figura 2 as ferramentas práticas que podem ser usadas na IADP.
Por questão de dimensão do artigo não é possível explanar todas as ferramentas de investigação e análise de doenças profissionais, que devem ser agregadas num procedimento, embora estas estejam referenciadas na bibliografia.

3.2. Investigação de doença profissional
Para a fase de recolha de evidências factuais, apresento a “time-line” e a “entrevista”, embora existam outras, como expressas na Figura 2.

Figura 2 – Ferramentas a aplicar na IADP
(Augusto, 2020)

3.2.1. Time-Line
A linha do tempo permite representar graficamente as evidências factuais. Tem como objetivo representar a compreensão do passado, o conhecimento do presente, e ações para o futuro. O entendimento do passado é realizado através de recolha de dados e informação, através de análise documental e entrevistas, de forma a caracterizar a doença profissional; a saúde do trabalhador exposto (ex: identificar registos de outras doenças e lesões do trabalhador afetado); e a identificação e caracterização das condições de trabalho no passado. O conhecimento do presente segue uma abordagem de 360º, podendo ser utilizado os 6M (Ishikawa, 1985) e a ferramenta da qualidade 5W1H; realização de entrevistas com respetivo guião ajustado e observação de trabalho de tarefas reais (OON), suportada por check list ajustada ao caso a investigar. A previsão e planeamento de ações para o futuro de ser realizado em grupo, com toda a equipa de investigação e outros convidados (ex.: trabalhador mais novo e o mais velho), através da técnica de brainstorming de forma a identificar ações com o objetivo de eliminar a possibilidade de agravamento ou recaída do trabalhador (reabilitação, reintegração profissional, adaptação do posto de trabalho) e também a ocorrência dessa doença em outros trabalhadores que exerçam funções similares.

3.2.2. Entrevista
Todas as ferramentas devem estar interligadas a ajustadas a cada situação e ao procedimento IADP e a entrevista segue também esse princípio. A entrevista tem como objetivo a recolha de informação e dados. Na sua estrutura existem três fases:
1) Na preparação deve ser elaborado um guião de entrevista com base na ferramenta da qualidade 5W1H, integrando questões abertas e fechadas. A equipa de entrevistadores deve possuir no mínimo dois intervenientes, um com um papel ativo de interação, entendimento de linguagem não-verbal e escuta ativa, enquanto o outro com o papel mais passivo de registar os dados e informações durante a entrevista. Deve haver o cuidado de preparação dos elementos físicos: ambiente privado, individualmente, nunca num open space, sala onde possa ser mantida confidencialidade, entre outros. Atualmente estamos em testes de regras para a preparação de entrevistas em modo on-line.
2) Na fase de condução, a entrevista deve ter uma declaração inicial, onde fique claro o principal objetivo e a referência à confidencialidade. Se for necessário evidenciar a lei n.º 42/2012, de 28 de agosto, artigo 7., “h) proteger a confidencialidade dos dados que afetem a privacidade dos trabalhadores”. Nesta fase é preenchido o formulário de “Perfil da Doença Profissional”, sendo este rubricado pelo trabalhador exposto. A escuta-ativa e a linguagem não-verbal mostram-se fatores criticos de sucesso.
3) Na fase de avaliação, devem ser procurados os pontos comuns e divergentes de todos os depoimentos, confrontar os pontos divergentes com os dados já recolhidos com o objetivo de confluir para pontos comuns. Se os dados forem insuficientes, deve ser iniciada nova ronda de entrevistas.

Tabela 1 – Análise de doenças profissionais segundo modelos lineares e/ou modelos não lineares (Augusto, 2020)

3.3. Análise de Doenças Profissionais
Através de um conjunto de factos, ainda que aparentemente dispersos ou desligados, é função da fase de análise de doença profissional montar o puzzle para que possa haver indiciadores de conexões e explicações (pensamento não linear) ou de causas (pensamento linear).

3.3.1. Análise ABC e Análise ETTO aplicado à doença profissional epicondilite
Qualquer tipo de análise deve ser contextualizada. Neste caso na fase de investigação foi caracterizada a doença epicondilite, o contexto onde a mesma pode ser agravada ou replicada e as características do trabalhador em termos de saúde. Alerto que o contexto onde a doença profissional se desenvolveu ao longo dos anos dificilmente ou diria que seja mesmo impossível a obtenção de dados e informações fatuais reais e válidas. A maioria das vezes a análise das doenças profissionais são realizadas perante factos do presente, recolhidos após a doenças profissionais terem ocorrido há algum tempo, por vezes anos. Se a investigação e análise for aplicada a uma quase-doença profissional, então podemos dizer que há elevada possibilidade de encontrar as causas latentes dessa mesma quase-doença profissional, o que é difícil acontecer com as doenças profissionais participadas e praticamente impossível para as doenças profissionais confirmadas. Assim, as análises das doenças profissionais serão sempre focadas em possíveis agravamentos e recaídas do trabalhador ou replicação da mesma doença a outros trabalhadores com condições de trabalho similares.
A fase de análise pode ser realizada segundo o modelo linear, para atividades onde o processo seja bem conhecido, com baixa variabilidade; e segundo o modelo não linear para as atividades com níveis elevados de variabilidade e de imprevistos. Para atividades de baixa incerteza podemos aplicar a análise ABC, colocando no centro o hábito (atos repetidos) de insucesso e identificar os seus antecedentes e consequências, sendo que os antecedentes devem ser do tipo organizacional, gestão/supervisão e individual (cognitivos, emotivos, físicos e sociais), e as consequências NIC (negativas, imediatas, certas) ou PIC (positivas, imediatas, certas).

Tabela 2 – Análise ABC de caso real de epicondilite, apresentado na 1.ª edição do curso de investigação e análise de doenças profissional

Em atividades e sistemas sociotécnicos, de elevada complexidade, variabilidade e incerta, o ser humano representa o elemento mais flexível e adaptável do sistema, mas a sua vulnerabilidade decorre da variabilidade e instabilidade principalmente dos fatores externos conhecidos e desconhecidos, mas também dele próprio, como exemplo temos o envelhecimento, capacidades funcionais, estado de saúde, fadiga, stresse, consumos de substância psicoativas, entre outras. Apesar disso, o elemento humano é o mais fiável no controlo de qualquer sistema, na medida em que gere os constrangimentos, adapta o seu comportamento a quaisquer condições externas, resolve problemas/desafios, melhora procedimentos, sendo por isso necessário desempenhar as suas funções com autonomia e liberdade instrutivas, disciplina aplicada a situações mais rotineiras (Geller, 2002) e adaptabilidade aplicada a situação desconhecidas e imprevistas (Hollnagel, 2009; Dekker, 2002). Em ambas as situações, o ser humano atua com inteligência, sem intenção para o dano, mas muitas das vezes com recursos limitados, o que pode conduzir a falhas.
Nos casos de atividades não lineares é apresentada a análise ETTO (Efficiency-Thoroughness Trade-Off - Compensação eficiência-qualidade) (Hollnagel, 2009) para a falha humana. Os trabalhadores procuram sempre otimizar os seus desempenhos, exercendo as suas tarefas da melhor maneira possível com um custo mínimo, ou seja, sem despender tempo ou esforços desnecessários. Isso é visto (Hollnagel, 2004, 147-148) como uma tentativa de equilíbrio ou compromisso aceitável entre os recursos que ele tem disponíveis e a exigência entre a eficiência e qualidade das tarefas, de modo a alcançar as metas internamente definidas. Relembro que nestes casos, o desempenho normal não é o prescrito nas regras e regulamentos, é muito mais aquele que resulta em ajustes comportamentais, face à elevada variabilidade constante. As decisões e adaptações que configuram exemplos do compromisso ETTO, podem comprometer o sistema de segurança e saúde. Um trabalhador pode fazer sempre uma avaliação rápida ou invés de outra mais detalhada, elevar o limiar do desencadeamento de determinada ação, omitir verificação, repetir a ação que funcionou em tarefa similar. Na análise ETTO, segue a sequência representado na Figura 3 e existem dois tipos de situações:
1) Exigências altas de produtividade: aos comportamentos tendem a sacrificar a perfeição/rigor (poupam recursos) até as metas serem atingidas.
2) Exigências altas de segurança e saúde: aos comportamentos tendem a sacrificar a eficiência (não poupam recursos) até as metas serem atingidas.
Segundo o mesmo autor, no desempenho humano existe a variabilidade individual como mostrei atrás e também a variabilidade organizacional, relacionado com a incapacidade de responder às exigências.
Parece-me que não é pela existência de tal variabilidade das tarefas que não há repetição de ajustes comportamentais de forma a existirem hábitos de insucesso, que possam confluir em doenças profissionais. Ainda se pode dizer que a existência de variabilidade e incerteza das atividades, pode conduzir a ajustes comportamentais constantes em termos cognitivos, e em termos físicos o exercício dessas atividades ser em posição de trabalho sentado, ou seja, haver um padrão comportamental repetido a nível físico, o que pode conduzir a doenças profissionais. Assim, a doença epicondilite, provocada por movimentos repetitivos em ciclos curtos, ausência de pausas, entre outros, tende a existir em atividades lineares e não lineares.

Figura 3 – Fluxo de tomada de decisão e ação, representado por Natividade Augusto (2013), com base em Wickens, C. D. (1976)  & Fishbein e Ajzen (2000)

3.4. Intervenção: primazia a barreiras preventivas positivas
Regra geral as barreiras podem ser corretivas, preventivas negativas focadas nas coisas que dão errado ou positivas focadas nas coisas que dão certo. Em termos de mudança de hábitos deve ser dada primazia a estas últimas já que são estas que repetem de forma sustentada os atos certos de sucesso, tornam-se em hábitos de sucesso. A definição das barreiras deve ser realizada pela equipa de investigação e análise, segundo a técnica de brainstorming. Cada um dos participantes da equipa deve propor pelo menos uma ação. Para a identificação das barreiras aplicadas aos comportamentos repetidos deve ser aplicada a análise ABC revertida, para atividades lineares, ou seja, é como que fosse colocado no centro o hábito alvo e de seguida identificar quais os antecedentes e consequências que devem ser ativadas. Para atividades não lineares, deve ser aplicado a análise ETTO com base na tipificação situacional e a identificação de barreiras para falhas de perceção, de memória, de decisão e de ação. As ações sobre as falhas humanas devem estar ajustadas ao nível de maturidade de cultura de segurança e saúde, ao tipo de sistema organizacional e ao tipo de falhas humanas, caso contrário, podem ser despendidos recursos sem obtenção de resultados. Neste sentido deve haver na equipa competências e habilidades na área comportamental. Serve também este momento de brainstorming, para estruturar as lições aprendidas, sendo que estas devem incluir tanto os pontos fortes a reproduzir (Healthy II) como os pontos fracos a melhorar (Healthy I). Para a estrutura das lições aprendidas devem ter em conta as respostas às seguintes questões: que informação divulgar, a quem divulgar, que meios utilizar, quantas vezes e de que modo, se sequencial ou intermitente.

CONCLUSÃO
Muito ficou por dizer, no entanto, deixo em modo de conclusão algumas notas:
1) Para quem quer iniciar a gestão de doenças profissionais, deve definir o âmbito excluindo as quase-doenças profissionais e fazer um esforço para incluir as doenças participadas;
2) Os dados e informação recolhidos sobre as condições de trabalho no passado, regra geral, não se podem usar na análise das doenças profissionais confirmadas no presente, no sentido de encontrar as causas, conexões e explicações. Neste caso apenas iremos tentar entender os cenários de condições de trabalho no passado no sentido de verificar se existe replicação parcelar ou fatorial no cenário das condições de trabalho no presente;
3) Os dados e informações recolhidos sobre as condições de trabalho no presente servirão para verificar a possibilidade de replicação e aqui sim poderá encontrar as causas, conexões e explicações de recaídas, agravamentos do trabalhador exposto e replicação da doença a outros trabalhadores;
4) Se as atividades forem completamente conhecidas, de fácil decomposição, as atividades sejam independentes do mercado globalizado, de baixa variabilidade, então pode utilizar ferramentas lineares para encontrar as causas de possíveis recaídas, agravamentos e replicações da doença;
5) Se as atividades forem globalizadas, com partes interdependentes e outras desconhecidas, com decomposição difícil ou impossível, de alta variabilidade, então deve utilizar ferramentas não lineares para encontrar conexões e explicações de possíveis recaídas, agravamentos e replicações da doença;
6) É possível na mesma empresa haver a convivência entre ferramentas lineares e não lineares, quando por exemplo a operação tem atividades extremamente influenciadas pelo mercado globalizado e as atividades de suporte não o são;
7) Os hábitos são comportamentos repetidos ao nível de consciente competente. Neste sentido para investigar e analisar as falhas humanas em IADP deve procurar dados e informações e analisar os hábitos e não os comportamentos.
A gestão de doenças profissionais foi um tema apadrinhado por nós devido à parceria de apoio com a EU-OSHA e continuará a ser daqui para a frente, estando já agendada a 2.ª edição deste curso para outubro de 2021. Aquilo que faremos agora poderá salvar vidas em contexto laboral, a médio e longo prazo.

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A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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