O PAPEL DO LÍDER NA CULTURA DE SEGURANÇA

01 abril 2021
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Author :   Bounassar, C.
Camila Bounassar | Psicóloga. Master Coach por Integrated Coaching Institute (ICI). Experiência em SST.| camila@horison.pt Bounassar, C. (2021). O papel do líder na cultura de segurança. Revista Segurança Comportamental, 14, 36-40. GA, Lda. Lisboa. Portugal

A cultura de segurança de uma organização é pautada nos valores, percepções, atitudes, competências e padrão de comportamento de indivíduos e grupos. Manter uma cultura de segurança de cuidado mútuo, com foco na prevenção e criação de ambientes de trabalho seguros e saudáveis é suportada por uma liderança forte, credível, visível e constante, que consiga influenciar toda a organização em prol de atitudes e comportamentos seguros e saudáveis. Neste cenário, esse artigo tem como objetivo geral apresentar o papel do líder na construção e perenização de uma cultura de segurança com base no cuidado ativo, usando como principal ferramenta, o processo de coaching, para desenvolver líderes na busca de uma melhor performance com suas equipes e melhorar assim a sua gestão no contexto organizacional.
Palavras-Chaves: Cultura de Segurança, Liderança, Gestão, Coaching, Performance, Desenvolvimento, Comportamento Seguro

CULTURA DE SEGURANÇA
Para muitos autores como Silva e Lima (2004), Glendon e Stanton (2000) a cultura de segurança é o produto dos valores, crenças, normas, atitudes, práticas adotadas pela organização como, por exemplo, as políticas, procedimentos, sistemas de controle, comunicação, ou seja, é o jeito de funcionar de uma organização. O maior objetivo de desenvolver uma cultura de segurança sustentável é promover um ambiente de trabalho seguro e saudável para os trabalhadores, prevenindo ocorrências indesejáveis, como acidentes.
A cultura de segurança num nível de maturidade de excelência, a segurança é valor e é compartilhada em todos os níveis da organização. A liderança é engajada e eficaz no incremento de implementação dos programas de gestão de segurança pautados nos comportamentos e caminha juntamente com a produtividade, a qualidade, a lucratividade e a eficiência operacional.
Este tipo de liderança possui a capacidade de promover a mudança da cultura de uma empresa no que tange a segurança do trabalho. Seu papel é pautado em aplicar e disseminar e comportamentos seguros e para isso requer, uma abordagem de equipe e uma atitude proativa individual e de grupo.

LIDERANÇA E SEGURANÇA
Em um contexto globalizado tornou-se cada vez mais importante uma liderança transformacional, uma vez que as exigências são maiores e mais diversificadas tanto em gestão estratégica como em gestão de segurança. Esta liderança tem que possuir soft-skills de forma a motivar equipes, desenvolver as competências, além de acompanhar, orientar, reconhecer e fazer aflorar o máximo do seu desempenho.
Para Bass (1985), os líderes transformacionais são agentes da mudança, incitam e transformam as atitudes, crenças e motivos dos seguidores, tornando-os conscientes das suas necessidades.
A liderança transformacional através do carisma, da inspiração, da estimulação intelectual ou da consideração individualizada permite que seus subordinados ultrapassem os seus próprios interesses. Eleva os ideais e o nível de maturidade de suas equipes, bem como as necessidades de realização, de auto-atualização e o bem-estar dos indivíduos, da organização e da sociedade (Bass, 1999, p. 11).
Para Wang et al. (2017), os líderes transformacionais desafiam o status quo e influenciam seus seguidores, através da motivação, a se dedicarem para além de suas próprias expectativas, buscando desafios no contexto organizacional, a fim de ajustar suas habilidades e competências. Dessa forma, a liderança transformacional se caracteriza, principalmente, por motivar todos os indivíduos envolvidos, favorecendo os seguidores a superarem o imediatismo e se reconhecerem como parte importante e de valor para organização (Northouse, 2012).
Como característica da liderança transformacional a importância da comunicação da visão, pois através dela o líder transmite quais os valores responsáveis por orientar e motivar seus seguidores a trabalharem para alcançar um objetivo coletivo, despertando um comportamento individual, porém em intercessão com os valores da organização (Martins, 2016).
Devido às constantes mudanças organizacionais e exigências de um mercado cada vez mais globalizado e competitivo, além da gestão de diferentes gerações, áreas de negócio e profissionais, os desafios dos líderes são cada vez maiores e mais complexos.
Nesse desafio, os líderes necessitam de capacitação em diversos temas ligados à gestão como: educação de adultos (andragogia), gestão de equipes, liderança eficaz, planejamento pessoal e diário, inteligência emocional, comunicação e relacionamento interpessoal e os aspectos humanos ligados a saúde, a segurança e meio ambiente. Dessa forma poderão ampliar a sua consciência sobre si e sobre os fatores que influenciarão em uma melhor gestão.
Um dos principais fatores de sucesso para implementar mudanças e melhorias na organização é a credibilidade como líder, ser exemplo e ter propósito e visão.

"(...) os líderes necessitam de capacitação em diversos temas ligados à gestão como: educação de adultos (andragogia), gestão de equipes, liderança eficaz, planejamento pessoal e diário, inteligência emocional, comunicação e relacionamento interpessoal (...).”

Para Araújo (2014), dentre os principais atributos que o líder deve possuir podem ser destacados os seguintes:
- disponibilidade para visitas aos locais de trabalho para acompanhar as atividades dos trabalhadores e dialogar sobre as dificuldades relacionadas com a segurança e saúde, mas também ouvir soluções aos problemas identificados;
- promover uma proximidade com seus liderados no sentido de os conhecer e identificar melhor suas condições físicas e emocionais para o desenvolvimento do trabalho;
- disponibilizar tempo para dialogar com os trabalhadores participando dos diálogos de segurança e das abordagens comportamentais em áreas de trabalho;
- realizar reuniões periódicas com as equipes para abordar o tema segurança e as boas práticas;
- participar ativamente nas investigações e análises de acidentes de trabalho;
- dar o exemplo em suas ações e ser coerente entre seu discurso e sua prática;
- utilizar sempre os equipamentos de proteção individual em áreas operacionais onde isso seja obrigatório ou aconselhável;
- respeitar as regras e normas de segurança, valorizar as práticas seguras na equipe e dialogando no sentido de corrigir comportamentos não aceitáveis daquele contexto (de risco);
- disponibilizar, tanto quanto possível, recursos para as melhorias;
- permitir e fomentar o mapeamento dos problemas, no sentido de os corrigir e promover medidas preventivas para evitar ocorrências futuras.
O líder dedica permanentemente seu tempo na busca de uma melhor gestão, porém a tarefa não é fácil, pois necessita equilibrar suas responsabilidades em adequar sua extensa agenda de compromissos gerenciais e cuidar de sua equipe.

O COACHING COMO FERRAMENTA DE GESTÃO
Autores como Whitmore (2010), Lages (2010) definem o coaching como um poderoso processo de autoconhecimento tanto a nível cognitivo, emocional e social, no sentido de identificar os seus pontos fortes e pontos a melhorar. Após este autoconhecimento serão estabelecidos objetivos e metas e identificação de comportamentos a manter, comportamentos a melhorar ou incremento de novos comportamentos, para colocar em prática ações em processo de mudança comportamental no sentido de atingir esses objetivos e metas.

“(...) a liderança transformadora constitui uma condição de êxito em uma organização que possui responsabilidade em desenvolver e reconhecer pessoas, reter talentos, e consequentemente a construção de um ambiente seguro e saudável."

O processo de coaching se baseia nos princípios da aprendizagem de adultos, com metodologia que valoriza a ação, foco e resultados. Possui ênfase nos processos de aprendizagem e desenvolvimento e aprimoramento de competências comportamentais.
Isso quer dizer que o coaching, contribui, através de diversas técnicas e ferramentas, para que o gestor, encontre por si mesmo, as respostas que irão direcioná-lo por um caminho mais rápida num curto espaço de tempo, para atingir os seus objetivos e metas almejados.
Tendo em conta a minha experiência prática, em vários setores, sobre clima e cultura de segurança bem como as de engajamento, normalmente apontam dificuldades da liderança em dar e receber feedback, abertura para diálogo, acompanhamento das atividades, comunicação e relacionamento com as equipes. Essas dificuldades podem resultar em insatisfação dos funcionários, conflitos na equipe, baixa motivação e desempenho, o que impacta diretamente na produção e na segurança ao executar um trabalho.
Baseada nesta minha experiência em consultoria a empresas brasileiras e multinacionais, as competências mais trabalhadas pelos líderes para melhorarem sua performance em prol de maiores níveis de segurança, em um processo de coaching, estão relacionadas com:
- melhorar o relacionamento com os subordinados, aproximando-os para “quebrar a distância”; melhorar a comunicação e a abertura para diálogo;
- gerir agendas para equilibrar as reuniões gerenciais e o acompanhamento das equipes, produtividade e resultados positivos das reuniões gerenciais;
- equilibrar entre vida pessoal e profissional do líder;
- transmitir feedback contínuo com o objetivo de posicionar o trabalhador e as equipes no sentido de os ajudar.
Os líderes ao refletirem sobre seu comportamento, elaboram planos de ação que são acompanhados e medidos constantemente. As ações são elaboradas e colocadas em prática para promover a mudança necessária e para isso, é necessário persistência e foco.
O processo de coaching proporciona aos líderes uma melhor compreensão de si mesmo e como este pode afetar positivamente e/ou negativamente suas equipes, conduz a autonomia, facilita a tomada de consciência, amplia as possibilidades de ação, possibilita a descoberta pessoal dos pontos fracos e das qualidades, aumenta a capacidade de responsabilidade pela própria vida e obtém equilíbrio de tempo, energia e satisfação entre vida e trabalho.
Através deste processo, os líderes conseguem melhorar e adotar novos comportamentos alinhados com o nível de segurança pretendido, com as necessidades e expectativas das suas equipes, sendo os resultados facilmente observados e percebidos por eles próprios, pela equipe e seus parceiros.

POSSÍVEIS RESULTADOS
Ao final do processo de coaching os líderes normalmente descrevem seu processo como uma oportunidade de refletir sobre suas práticas e elevar sua performance na gestão da sua área e de sua equipe, faz repensar na gestão e uso de ferramentas como PDCA, 5W2H e outros para acompanhamento de projetos, processos e atividades da equipe. Possibilita também um feedback sobre seu comportamento e o caminho trilhado, é também uma forma de agir sobre as suas dificuldades e aproveitar as suas potencialidades.
Outro fator importante é o espaço reservado para abordar as questões e necessidades individuais de cada gestor, e através desse espaço podem ser identificadas semelhanças de dificuldades e ações a pôr em prática.
O clima de segurança fica mais receptivo, há maior interação entre gestores e subordinados e entre as áreas, o que influencia numa melhoria constante e fluida entre essas áreas.
Os aprendizados em relação à gestão promovem também outras competências importantes no exercício da liderança, como a negociação com as áreas e equipes, comunicação e relacionamento mais aberto entre líderes e liderados e entre outras áreas, práticas de delegação, escuta ativa, aprender novas ferramentas para melhor a gestão nas atividades do dia a dia, acompanhamento de área, orientação e apoio e o reconhecimento de boas práticas.
Em suma, a liderança transformadora constitui uma condição de êxito em uma organização que possui responsabilidade em desenvolver e reconhecer pessoas, reter talentos, e consequentemente a construção de um ambiente seguro e saudável. Este é o clima de segurança onde a prevenção é pautada por uma liderança de exemplo, beneficiando todos os parceiros, essencialmente a própria organização.

CONCLUSÃO
A promoção de uma cultura de segurança sustentável e de excelência parte do pressuposto da liderança desempenhar um papel fundamental para o seu incremento, promovendo o cuidado de uns com os outros e aliando a produtividade com a segurança. No entanto, o papel da liderança transformadora é também focar o envolvimento e a participação da força de trabalho, no sentido de esta desenvolver o sentido de pertença. Desta forma, a cultura de segurança será alimentada também down-top, tornando os trabalhadores como parte da força do motor da mudança. Adotar o coaching como instrumento para a liderança transformadora permite a construção de um ambiente organizacional com foco em pessoas adotando uma visão sistêmica do ser humano e suas motivações e desperta o potencial que existe em cada profissional para concretizar as metas e atingir resultados. O coaching auxiliará significativamente para transformar o líder numa figura estratégica e vital para a organização.

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