TELETRABALHO E SAÚDE MENTAL EM TEMPOS DE PANDEMIA

01 abril 2021
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Author :   Macedo, F.
Fátima Macedo | Psicóloga Especialista em Saúde Mental no Trabalho. CEO da Mental Clean.|fatima.macedo@mentalclean.com.br Macedo, F. (2021). Teletrabalho e saúde mental em tempos de pandemia. Revista Segurança Comportamental, 14, 58-64. GA, Lda. Lisboa. Portugal

O teletrabalho sempre foi alvo de questionamentos com relação à necessidade de regulamentação e ao impacto na saúde física e mental do trabalhador. Em tempos de COVID-19, com a necessidade do isolamento social, a modalidade se tornou mandatória em grande parte do mundo, incluindo o Brasil. Aliado à pandemia, o teletrabalho trouxe impactos positivos e negativos à saúde mental dos trabalhadores. São apresentadas algumas possíveis medidas de intervenção para estes últimos impactos.

INTRODUÇÃO
O home office ou teletrabalho1 , modalidade de trabalho desejada por muitos, experimentada por alguns e inimaginável por tantos outros, tornou-se uma realidade muito antes do esperado e, sem que houvesse tempo para planejamento, por conta da pandemia que assolou o mundo em março de 2020, levou milhares de trabalhadores dos escritórios para trabalharem em casa.
Apesar de parecer uma modalidade associada aos tempos modernos, é possível encontrar registros desde a década de 50, sendo que na década de 70 a 80, na Europa, surgiram diversas experiências de teletrabalho como alternativa para reduzir o movimento de deslocamento casa-trabalho e trabalho-casa (commuting, em inglês). Jack Nilles, cientista da NASA – foi o fundador do teletrabalho, por intermédio de estudo realizado em 1973, denominando-o de telecommuting (Fernandes, 2020).
O termo “teletrabalho” está associado ao trabalho realizado remotamente, por meio de tecnologias de informação e comunicação (TIC), possibilitando a obtenção dos resultados do trabalho em um local diferente daquele ocupado pela pessoa que o realiza (Rosenfield & Alves, 2011).
No Brasil, em 15 de dezembro de 2011 entrou em vigor a Lei n.º12.551, que alterou o art.º 6º da CLT, inserindo a modalidade do trabalho à distância como equivalente ao trabalho realizado no estabelecimento do empregador e em domicílio, sendo por muitos juristas uma norma considerada limitada do ponto de vista de regulamentação trabalhista, o que teria ocorrido somente com o advento da Lei n.º 13.467/2017, que trouxe regulamentação e clareza quanto ao contrato de trabalho, horas extras, responsabilidade quanto à infraestrutura e equipamentos, a necessidade de o trabalhador instruir os empregados, de maneira expressa e ostensivamente quanto à prevenção de doenças e acidentes de trabalho, entre outras regulamentações a serem observadas e seguidas (Fernandes, 2020).
Na União Europeia a ausência de um marco regulatório na modalidade é considerada uma das questões urgentes na implementação de práticas a nível transnacional (Belzunegui & Garcés, 2020).
Se em tempos normais a modalidade já trazia questionamentos e era tema de debates, em tempos de pandemia se tornou um desafio ainda maior, porém é inegável que se tornou uma importante ferramenta para que muitas empresas pudessem continuar operando e permanecer produtivas, algumas até superando suas metas e, com isso, muitos trabalhadores puderam manter seus empregos, em tempos tão incertos.

ESTUDO EMPIRICO
O presente artigo é fruto dos registros e da percepção das psicólogas da Mental Clean, consultoria brasileira, especializada em saúde mental no trabalho. As profissionais atuaram como facilitadoras no período de março de 2020 a fevereiro de 2021, em 417 (quatrocentas e dezassete) atividades relacionadas a treinamentos de lideranças, workshops, rodas de conversa, palestras interativas e intervenções em situações de crise, em 82 (oitenta e duas) empresas no Brasil e América Latina, de 100 (cem) a 33 (trinta e três) mil funcionários, dos ramos automobilístico, varejo, farmacêutico, telefonia, agroindústria, saúde, financeiro, alimentação, mineração, tecnologia e serviços.

"(...) impacto negativo mais citados pelos trabalhadores foram: o aumento generalizado de sinais e sintomas como ansiedade, preocupação excessiva, raiva, tristeza, frustração, choro sem motivo aparente, altos e baixos emocionais, tensão, irritabilidade, aumento da ansiedade generalizada, síndrome do pânico, aumento do consumo de bebida alcoólica levando a abuso, descontrole com compras online, insônia com consequente aumento do consumo de remédios."

Decorrente dos nossos registros:
- 92% das empresas participantes dessas atividades, antes da pandemia, não possuíam a modalidade de teletrabalho e, como citado anteriormente, não consideravam a possibilidade de suas operações funcionarem desta forma, fato este afirmado pelas áreas de recursos humanos e saúde ocupacional.
- 67% das empresas, por serem indústria ou serviços essenciais, adotaram o modelo híbrido durante a pandemia, mantendo suas operações funcionando, porém algumas, em torno de 10 empresas, com diminuição da produção e redução de jornada nas áreas administrativas das unidades e áreas corporativas.
Vale ressaltar que apesar das diferenças significativas de porte, ramo de negócio, público-alvo e suas características sociodemográficas, os discursos a respeito dos prós e contras do teletrabalho e de seu impacto na saúde mental não revelam diferenças, sendo muito similares.

IMPACTO NEGATIVO NA SAÚDE MENTAL
O que pudemos claramente observar, diante dos relatos dos trabalhadores, os maiores responsáveis pelo impacto negativo na saúde mental são:
- O isolamento social decorrente do advento da COVID-19;
- A falta de planejamento no modo como se iniciou e ocorreu o teletrabalho;
- Agravamento nas empresas onde ainda não havia esta prática implantada.
Como impacto negativo mais citados pelos trabalhadores foram: o aumento generalizado de sinais e sintomas como ansiedade, preocupação excessiva, raiva, tristeza, frustração, choro sem motivo aparente, altos e baixos emocionais, tensão, irritabilidade, aumento da ansiedade generalizada, síndrome do pânico, aumento do consumo de bebida alcoólica levando a abuso, descontrole com compras online, insônia com consequente aumento do consumo de remédios para dormir, entre outros.
Muitos dos sinais, por conta da duração da pandemia, conduziram a sintomas levando ao adoecimento mental, principalmente nos quadros de depressão e ansiedade. Com a continuidade da pandemia e as novas cepas, a saturação que já vinha sendo citada em meados de outubro, foi piorando agravando casos de depressão e pânico.

ESTRESSORES IDENTIFICADOS
Os estressores identificados mais importantes foram os seguintes:
- A duração e a intensidade dos fatos relacionados à COVID-19, com o aumento no número de casos, o aumento das mortes e a falta de leitos em hospitais, como grandes contribuintes do estresse e todas as suas consequências.
- A carga de trabalho aumentada, em muitos casos pelo excesso de reuniões levando a sensação de sobrecarga e esgotamento mental.
- A dificuldade do autogerenciamento impactando na gestão de tempo e na perda de prazos.
- A jornada de trabalho estendida e fracionada, devido ao fato de as atividades domésticas terem se intensificado pela ausência dos serviços habitualmente contratados, assim como a perda de apoios familiares importantes como avós, tias e o fechamento das escolas e creches. Com isso, a realização de reuniões ao mesmo tempo em que se preparava o almoço, se acompanhava filho(s) nas atividades escolares online e se limpava a casa, também foram importantes estressores identificados.
- Para muitos trabalhadores a sensação é de que o trabalho passou a “morar” em sua casa, deixando de existir fronteiras e levando a uma necessidade de se manter constantemente conectado com grande dificuldade em se desligar do trabalho, “abro meu computador e nem sei para quê” (sic)2 .
- Alguns relatos, em grupos ainda recentes, referem a sensação de que “todos os dias são iguais” (sic)3 , mesmo os finais de semana, contribuindo para diversos sintomas emocionais.
- Também foi citada a baixa interação social por longos períodos sem contato com colegas de trabalho.
- Aumento do estresse em gestores com dificuldade em liderar à distância e com perfis mais controladores. “Ninguém virou obstetra” (sic)4 , disse um trabalhador numa roda de conversa, se referindo a acionamentos tarde da noite e à urgência no retorno, presente em algumas lideranças fora do horário de trabalho, fato pouco comum no modelo presencial.
- Outro ponto que merece destaque e que foi amplamente discutido ao longo de 2020 e que segue em 2021, foram as situações relacionadas à falta de espaço adequado para dividir o teletrabalho com outras pessoas da família e, também com as crianças em home school. Não foram incomuns relatos de pessoas trabalhando nas cozinhas, varandas, lavanderias e banheiros da casa.
- A vivência dos diversos papeis sociais dentro de um único local e a perda da fronteira entre casa e trabalho, com a interferência da família em situações de trabalho, foram citados como estressores importantes e, pontos altos para o aumento da ansiedade e irritabilidade.
- Ambientes familiares conturbados também aparecem como fator de estresse. Em uma pesquisa realizada pelas facilitadoras entre maio e outubro de 2020, com 1850 trabalhadores, 44% relataram não possuir um ambiente tranquilo para se trabalhar e, no cruzamento dos dados, esses mesmos trabalhadores foram os que mais apresentaram aumento de ansiedade e irritabilidade.
- Por esse e outros motivos, como a híper convivência, os conflitos entre trabalho e família foram exacerbados durante a pandemia, levando a sentimento de culpa, irritabilidade e frustração. Além de situações relacionadas ao adoecimento em familiares, como a própria pandemia COVID-19 ou adoecimento emocional em cônjuges e filhos.
- Muitos trabalhadores também relataram a dificuldade em dormir mais cedo, ficando acordados muito além do habitual, chegando a trocar o dia pela noite. Relatos de insônia e sono fragmentado também apareceram, impactando nas atividades diárias pessoais e profissionais. Em muitos casos essas situações se deram pelo excesso de preocupação, ansiedade, medo de adoecer ou de perder o emprego, entre outros motivos.
Dando continuidade, apresentamos de seguida outros estressores identificados que merecem um maior desenvolvimento.

Estressores:
- Aumento das mortes;
- Carga de trabalho;
- Dificuldade do autogerenciamento;
- Jornada de trabalho estendida e fracionada;
- Inexistência de fronteiras casa-trabalho;
- Todos os dias são iguais;
- Baixa interação social com colegas;
- Gestores controladores;
- Partilha de espaço em casa;
- Diversos papeis sociais num único local;
- Híper convivência familiar e conflitos;
- Insônias e sono fragmentado.

Diferenças entre gêneros
Com relação às diferenças entre gêneros, se o fato de ser mulher já trazia em si um risco maior para o adoecimento mental, por questões hormonais, falta de oportunidades iguais e triplas jornadas. Com a pandemia esse risco se tornou ainda maior.
As mulheres foram os principais alvos de demissão. Dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios – COVID – 19 (PNAD Covid-19, in IBGE (2020)) indicam o acirramento da desigualdade histórica no mercado de trabalho brasileiro: enquanto o desemprego entre as mulheres ficou em 17%, entre os homens o percentual foi de 11,8%, em setembro de 2020 (IBGE, 2020).
A falta de apoio para o cuidado com as crianças e a casa, também contribuíram para processos de exaustão e dificuldades em se dedicar às entregas no trabalho, gerando maior ansiedade.
Também não podemos deixar de citar as mães de bebês e filhos pequenos, que precisam conciliar os cuidados das crianças com as reuniões, prazos e entregas, levando à necessidade de trabalharem à noite para conseguir dar conta de tudo, enquanto a criança dormia, gerando sentimento de culpa e levando ao esgotamento físico e mental. Foram inúmeros os relatos de desconforto emocional devido ao fato de almoço e jantar serem substituídos por lanches, crianças irem dormir sem banho, e não ser possível acompanhar a escola.
Trabalhadoras em retorno de licença maternidade também relatam um maior sofrimento emocional, principalmente diante da falta de empatia do gestor em relação à sua nova rotina.
Além do adoecimento mental, a violência doméstica também disparou, se tornando outro fenômeno mundial, chegando a índices alarmantes, conforme foi amplamente divulgado pela mídia global no último ano e observado pelo Núcleo de Especialidade de Violência Contra a Mulher da Mental Clean, tendo um aumento de 22% de procura pelo serviço. A casa se tornou o lugar mais perigoso para as mulheres. No Brasil diversas campanhas foram criadas para que as mulheres pudessem pedir ajuda, como a campanha da Secretaria da Mulher do Distrito Federal “Mulher você não está só”, que tem por objetivo conscientizar as mulheres de que os serviços de proteção continuam ativos durante a pandemia, mas sofreram alterações no funcionamento. Assim como o Distrito Federal, outros estados brasileiros lançaram campanhas de conscientização e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Associação de Magistrados Brasileiros (AMB) lançaram a campanha nacional “Sinal Vermelho para a Violência Doméstica”. A iniciativa tem como foco ajudar mulheres em situação de violência a pedirem ajuda nas farmácias do país, mostrando a um funcionário da farmácia um X em vermelho na palma da sua mão, como o sinal de que está em perigo e precisa de ajuda. A campanha também trouxe orientações aos funcionários das farmácias de como ajudar.
O trabalho era um fator de proteção para muitas mulheres, além do fato de que maridos com perfis mais agressivos deixaram de ter válvulas de escape fora do lar, como o próprio trabalho, o clube, o happy hour ou o futebol com os amigos.
Ao gestor cabe um olhar mais atento para as questões citadas acima e avaliar a realidade onde essa trabalhadora está inserida e quais os seus desafios pessoais e necessidades para que possa oferecer apoio e fazer ajustes necessários para um dia a dia mais leve e produtivo.

Pessoas que moram sozinhas
Com relação às pessoas que moram sozinhas, estudos sobre o impacto do teletrabalho na saúde mental do trabalhador, como o estudo de Fonseca e Nebra, 2012, já traziam o trabalho solitário como um fator de atenção. Estes trabalhadores referem mais dificuldade em lidar com o teletrabalho, por conta da solidão e a falta que sentem dos colegas e do ambiente de trabalho. Em contrapartida os trabalhadores que dividem espaço com familiares referem mais dificuldade em conciliar as tarefas domésticas com as profissionais.

Falta de infraestrutura adequada
Para alguns trabalhadores a falta de infraestrutura adequada também apareceu como um estressor importante na relação com o teletrabalho. Nem todas as empresas forneceram equipamentos como computador, cadeiras ergonomicamente adequadas, apoio para os pés e fones de ouvidos.

Falta de flexibilização
Outro ponto citado foi a falta de flexibilização de metas e prazos, mesmo diante do cenário econômico e pessoal do trabalhador.
A necessidade de se provar que se está trabalhando também apareceu em diversos grupos, como motivo de estresse, hora motivada pelo contato constante do gestor, hora motivada por uma sensação do trabalhador de que, ao trabalhar em casa, não seria possível provar seu esforço e o tempo que leva determinadas entregas.

SETORES COM MAIS SOFRIMENTO PSÍQUICO
As atividades realizadas demonstraram que algumas áreas foram mais afetadas, com relatos de alto sofrimento emocional em trabalhadores das áreas de vendas, comunicação e marketing e a área de TI, em especial esta última com muita pressão e sobrecarga de trabalho levando a altos níveis de estresse.
De acordo com estudos de Bartel, Wrzesniewski, Wiesenfeld (2012); Charalampous et al. (2019); Orhan, Rijsman, Van Dijk (2016); alguns dos impactos negativos relatados acima, tais como: o teletrabalho como risco de isolamento profissional, afetar negativamente as interações sociais e de amizade, levando à individualização, ansiedade, diminuição do compartilhamento e do conhecimento, dificuldades para realização do trabalho, telepressão, diminuição da comunicação com a equipe, diminuição do reconhecimento e feedback (apud Antunes & Ficher, 2020).
Diante dos relatos e solicitações de intervenção, em nossa vivência, áreas como Vendas e Comunicação e Marketing se configuraram como áreas com maior sofrimento psíquico diante da nova modalidade.

“(...) a campanha nacional “Sinal Vermelho para a Violência Doméstica”. A iniciativa tem como foco ajudar mulheres em situação de violência a pedirem ajuda nas farmácias do país, mostrando a um funcionário da farmácia um X em vermelho na palma da sua mão, como o sinal de que está em perigo e precisa de ajuda."

POSSÍVEIS ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO
Minimizar esses impactos negativos passa por toda uma revisão a respeito da organização do trabalho, gestão de pessoas, estilo de liderança, segurança psicológica, a implantação de programas estruturados de saúde mental no trabalho além de um olhar ampliado para as necessidades do trabalhador dentro do contexto de trabalho e vida pessoal em que está inserido. Controles e a ajuda ao trabalhador para que realize pausas e micropausas, ampliação do descanso estabelecendo day off e férias de 20 dias podem contribuir. Treinamentos de lideranças para lidarem melhor com as questões de saúde e adoecimento mental no ambiente de trabalho também têm se mostrado bastante eficazes.
Duggan & Smith (2015), em seus estudos, referem o quanto as mídias sociais podem ser usadas para a diminuição do sofrimento psíquico, como possibilidade de estabelecer e manter as relações sociais.

PRINCIPAIS IMPACTOS POSITIVOS NA SAÚDE MENTAL
Se por um lado muitos sentiram o impacto negativo, por outro, diversos trabalhadores relataram facilidade em se adaptar ao momento e aumento do bem-estar emocional como consequência das oportunidades que o teletrabalho ofereceu. Dentre elas podemos citar:
- Maior qualidade de vida ao aproveitar o tempo que gastavam com o deslocamento para o início de atividade física, meditação, melhoria na qualidade do sono, pelo aumento do tempo de descanso, início da leitura, conciliação entre outras atividades. Alguns trabalhadores relataram que gastavam em média 4 (quatro) horas com o deslocamento casa-trabalho, trabalho-casa, e, atuando com teletrabalho foi notável o aumento da qualidade de vida ao melhorar a conciliação da vida pessoal com o trabalho, com consequente impacto positivo na saúde mental ao se sentir mais saudável, realizado e produtivo.
- A melhoria da convivência com a família com a realização de atividades que antes não eram comuns, como brincar, pintar, cozinhar, cuidar da casa, assistir séries e filmes, também foi ponto alto nas citações.
- Diversos trabalhadores tomaram decisões como a compra ou adoção de animas de estimação, mudança de residência para espaços maiores ou reformas.
- Os relacionamentos amorosos também apareceram como fonte de bem-estar em diversos trabalhadores, com a consolidação de relações de longa data e o início de novos relacionamentos amorosos pelo uso de aplicativos, com alguns apostando no chamado “test drive do amor”, ao decidirem morar juntos durante a pandemia, com impacto emocional positivo nos envolvidos.
- A gratidão pelo teletrabalho aliada ao alívio de se manter empregado, as medidas protetivas tomadas pela empresa e as atividades online oferecidas, algumas estendidas à família, também foram aspectos citados como fonte de bem-estar e impacto na saúde mental, por se sentirem cuidados, respeitados, gerando alegria e tranquilidade.
- Contatos realizados pelas áreas de recursos humanos, saúde ocupacional e profissionais contratados trouxeram sentimentos de cuidado, pertencimento e reforçaram a relação positiva com o teletrabalho. Neste contexto citamos a manutenção do trabalho como um importante fator de proteção à saúde mental do trabalhador.
- Relatos sobre aumento da autonomia, confiança do gestor por assumir novas responsabilidades, com espaço seguro para erros e acertos e a possibilidade de novos aprendizados, também trouxeram impactos positivos.
Fonseca & Nebra (2012), em um estudo com 90 trabalhadores da área da comunicação e tecnologia da informação, revelaram resultados, de forma geral, favoráveis ao teletrabalho, e, com exceção de algumas evidências de sintomas maníacos, não foram identificados maiores quadros indicadores de sofrimento psíquico nos teletrabalhadores.

Impactos Positivos:
- Maior qualidade de vida por haver tempo para atividades lúdicas;
- Mais tempo para a família;
- Compra ou adoção de animas de estimação;
- Mudança para
residências maiores,
- Consolidação de relações amorosas de longa data;
- Início de novos
relacionamentos
amorosos, para colmatar o distanciamento social;
- Sentimentos de
pertença derivados aos contatos de cuidados
realizados pelas
empresas;
- Aumento de autonomia e confiança do gestor.

REFLEXÕES FINAIS
Diante do exposto ficam as perguntas: Qual o impacto do teletrabalho na saúde mental do trabalhador?
A quem devemos atribuir o aumento da ansiedade, da depressão, das crises de pânico e tantos outros sintomas e psicopatologias?
São desencadeados pelo teletrabalho ou pela COVID-19?
Diante do cenário de pandemia podemos considerar que ambos os fenômenos têm a sua contribuição, com prós e contras.
Tratando somente da modalidade de teletrabalho, na atualidade e, podemos afirmar que, por longa data, avaliar o impacto na saúde mental de forma isolada não será possível, diante do fato de competir com a COVID-19 e todo o lastro de prejuízos que ocasionou na vida de muitos trabalhadores, tais como o luto – muitos trabalhadores perderem amigos e familiares, sendo que alguns perderam mais de 2 pessoas da família em curto espaços de tempo – e dificuldades econômicas – mesmo que o trabalhador tenha se mantido empregado, outras pessoas da família perderam seus empregados, tendo o trabalhador que assumir outras responsabilidades financeiras, além das suas, além do impacto do medo na saúde mental.
É inegável que o cenário de pandemia trouxe um contexto de adoecimento emocional significativo, independentemente do teletrabalho.
Dados preliminares da Pesquisa de Saúde Mental do Ministério da Saúde, coletados a partir do questionário online disponível entre 23 de abril a 15 de maio, revelam uma elevada proporção da ansiedade (86,5%) e uma moderada presença de transtorno de estresse pós-traumático (45,5%) entre os 25.118 brasileiros que acessaram o questionário no período pesquisado (Ministério da Saúde, 2020)
Sugere-se que avaliações acerca da saúde mental do trabalhador relacionadas somente ao teletrabalho, sejam realizadas, no mínimo 12 meses após o término da pandemia para que se tenham dados livres desse cenário tão caótico.
Pesquisas recentes sugerem que o teletrabalho veio para ficar e que se tornará a nova realidade da grande maioria das empresas no mundo.
No mercado imobiliário já se observa grande movimento de devolução de grandes empreendimentos, com consequente substituição por espaços menores.
Muitas empresas e instituições que não viam a possibilidade de realizar o trabalho à distância, perceberam o quanto é possível não só manterem a operação em pleno funcionamento como também crescerem o negócio.
O modelo híbrido surge então como uma grande possibilidade de atender às diversas necessidades e, já se mostra como uma importante solução para alguns aspectos da vida moderna:
1. A melhoria da qualidade de vida no trabalho e a manutenção do bem-estar físico e mental – com as áreas de saúde, segurança e recursos humanos promovendo ações de cuidado e proteção à saúde mental do trabalhador;
2. O alto custo com locação – é possível ter espaços menores realizando revezamento das equipes;
3. O trânsito intenso e longas distâncias com forte impacto na interface casa-trabalho e trabalho-casa - realidade da grande maioria das metrópoles;
4. A diminuição da poluição do meio ambiente – com a redução da emissão de gases poluentes;
5. A diminuição da superlotação dos transportes públicos – com a diminuição da circulação dos trabalhadores;
6. A diminuição, ou até inversão, da movimentação de pessoas das cidades do interior para os grandes centros, cujos benefícios poderão ser sentidos em vários aspectos.
Considerando ser esta uma forma de atuação sem retorno, alguns dos motivos que impactam negativamente na saúde mental do trabalhador citados acima ainda continuarão a existir mesmo após a pandemia, devendo ser alvo de atenção nas empresas.
Da mesma forma que a empresa precisará rever suas políticas e a organização do trabalho, o trabalhador também precisa se ver como um sujeito ativo deste processo de mudança e busca de melhoria contínua, exercendo um papel de protagonista na reformulação da organização do trabalho, buscando compor, junto com seu gestor uma relação de trabalho mais justa e transparente.

Referências Bibliográficas
Antunes, E. D.; Fischer, F.M. (2020). Ninguém é uma ilha: Os riscos do Teletrabalho à saúde do trabalhador e da trabalhadora. Série Temática: Teletrabalho: Aspectos adversos do Teletrabalho para a saúde dos trabalhadores [on-line]. Publicado em 08/2020. Acessível em https://apmtsp.org.br/aspectos-adversos-do-teletrabalho-para-a-saude-dos-trabalhadores/ (acessado em 18/02/2021)
Belzunegui, E. A.; Garcés, A. E. (2020). Teleworking in the contexto of the Covid-19 Crisis, Sustentabilidade, MDPI, Open Access Journal, vol. 12 (9), pp.1-18.
Biblioteca, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2020. [on-line]. Acessível em https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/27947-divulgacao-mensal-pnadcovid2.html?=&t=o-que-e (acessado em 18/02/202)
Duggan, M. & Smith, A. (2015). Social Media Update 2013 [on-line]. Acessível em https://www.pewresearch.org/internet/2013/12/30/social-media-update-2013/ (acessado em 15/02/2021)
Fernandes, G.R.M. (2020). A regulamentação do teletrabalho no Brasil: avanço ou retrocesso? [on-line]. publicado em 03/2020. Acessível em https://jus.com.br/artigos/80732/a-regulamentacao-do-teletrabalho-no-brasil-avanco-ou-retrocesso (acessado em 18/02/2021)
Fonseca, R.L. & Nebra, A.R.P. (2012). A epidemiologia do teletrabalhador: impactos do teletrabalho na saúde mental [on-line]. Acessível em https://www.revistas.usp.br/cpst/article/view/61625 (acessado em 18/02/2021)
Giotto, R. (2020). Medicina do Trabalho para o Teletrabalho. Série Temática: Teletrabalho: A legislação brasileira para o Teletrabalho [on-line]. publicada em 08/2020. Acessível em https://apmtsp.org.br/a-legislacao-brasileira-para-o-teletrabalho/ (acessado em 18/02/2021)
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Rocha, C. T. M.; Amador, F. S. (2018). O teletrabalho: conceituação e questões para análise. Cad. EBAPE.BR. vol.16, n.1. Rio de Janeiro, Brasil.
Rosenfield, C.L.; Alves, D. A. (2011). Autonomia e trabalho informacional: o teletrabalho. Cad. EBAPE.BR vol.54, n.1, pp.207-233. Rio de Janeiro, Brasil
Tavares, A. I. (2017). Telework and health effects review. Centre for Health Studies of the University of Coimbra, Portugal.

1 Termo sugerido pelo Conselho Editorial da Revista Segurança Comportamental e que será utilizado neste artigo.
2,3,4 Adverbio latino – sic erat scriptum – transcrito no original.

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A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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